Nossa Experiência Beta

“Hoje, consigo olhar para trás e ver que Steve Jobs estava certo: nós não conseguimos conectar os pontos olhando para frente; só conseguimos fazê-lo olhando para trás. Ando conectando vários pontos da minha história e tentando construir outros para conectar no futuro. O que aprendi com tudo isso é que quando estamos dispostos a nos transformar, cada novo dia se inicia com um ‘Welcome to Tomorrow’.”

Assim terminava o primeiro texto publicado pelo Cientista Beta, em 5 de outubro de 2015. Hoje, pouco mais de um ano depois, tanta coisa aconteceu… já criei novos pontos em minha história, que acabaram de se conectar. O último final de semana foi a concretização dessa conexão de pontos, que me mostrou que realmente, quando estamos dispostos a nos transformar, quando somos nossa eterna versão beta, todo dia é um amanhã nos dando boas-vindas. A Experiência Beta foi o 1º Encontro Nacional do Cientista Beta, e foi tão intenso, que quando acabou eu só podia me dizer aliviada e imensamente grata. Tenha certeza de que esse final de semana no Google, com jovens cientistas do Brasil inteiro, será um dos pontos que ainda vai se conectar na história de cada um desses jovens.

Durante meu ensino médio inteiro eu fiz pesquisa e isso me transformou. Foi essa transformação, a descoberta de um potencial desconhecido, os horizontes expandidos, que me fizeram querer criar algo como o Cientista Beta. A verdade é que de alguma forma, eu tinha muita gente boa ao meu redor para me espelhar quando fazia pesquisa. Gente que havia desenvolvido projetos sensacionais, viajado o mundo… gente que falava com brilho no olho, que se superava. E assim, eu estava sobre os ombros de gigantes e era mais fácil ver mais longe. Agora, para criar o Cientista Beta, não conseguia ter quem me dissesse o que fazer. Meus modelos e exemplos não haviam feito nada como o que sonhamos fazer. E eu estava ali, no comando desse barco, tentando liderar as pessoas que tornariam esse sonho real. A verdade é que sem poder me sentir nos ombros de gigantes, eu me sentia pequena perto de tudo que a gente queria fazer. Eu precisava guiar um barco com marujos incríveis, que eu sequer entendia como haviam topado fazer parte disso tudo, mas estávamos em mar aberto e ninguém havia percorrido o caminho antes para me dizer o que fazer. As pessoas confiavam em mim, me viam como líder, enquanto eu muitas vezes me sentia pequena. Esse foi, de longe, o maior desafio da minha vida, a experiência que mais me trouxe crescimento. Nesse ano que passou, foram tantas horas investidas nesse sonho, tanto esforço, tanta reunião, problema e solução… que não poderia ter sido diferente: conecto hoje pontos novos da minha história, e agora ela já está repleta de pontos que também estão fazendo a história de outras pessoas se conectarem.

A ideia de realizar a Experiencia Beta era reunir todos os estudantes que receberam a nossa mentoria e seus mentores. Se fosse assim, já seria perfeito. Ao longo do ano a gente estava interagindo tanto que parecia fazer sentido criar um momento para que nossas conexões deixassem de ser virtuais. Porém, como tudo no Cientista Beta, se é para fazer… a gente sonha grande. Se o que era para ser um e-book virou um site de divulgação científica e programa de mentoria, então o que era para ser uma reunião dos mentores e mentorados virou a Experiência Beta: nosso primeiro encontro nacional, realizado na sede do Google!

Não será possível contar com fidelidade o que ocorreu nesses dois dias para quem não estava lá conosco. Só quem esteve lá, sabe do que estou falando. Tivemos palestras com grandes nomes da ciência como a Márcia Barbosa e o Carlos Brito, uma tarde de pitches dos jovens cientistas que receberam avaliações e feedbacks de uma banca extremamente qualificada. Depois, um momento de conversa com a Roseli Lopes, que foi uma verdadeira aula. Já no final do primeiro dia, via os jovens emocionados… entrava no banheiro e via meninas conversando como se fossem melhores amigas. Vi envelopes se enchendo de feedbacks dos projetos, e isso não estava vindo dos avaliadores… eram os próprios jovens preocupados em ajudarem uns aos outros. Muitos desses jovens já haviam participado das maiores competições científicas do mundo, e disseram que mesmo assim, nunca haviam parado para ouvir a apresentação de tantos projetos, e que isso havia feito a diferença. Esse momento final que conduzi ao encerrar o primeiro dia, mexeu demais comigo. Enquanto eles contavam como estava sendo a experiência, eu pensava “Como é que a gente conseguiu fazer tanta gente vir do país inteiro?”, “É verdade que esse pessoal todo pegou avião, se virou para conseguir dinheiro para vir?”. Eles não haviam ouvido de ninguém que “O evento era sensacional e por isso deveriam vir”, afinal, era a primeira vez que a gente estava fazendo. Só posso pensar que são jovens loucos, ou muito corajosos mesmo.

No segundo dia, começamos com os estudantes escrevendo em seus pôsteres quais eram suas principais demandas, e depois, eles passavam pelos pôsteres dos colegas a se ofereciam para ajudar. Vivenciamos um painel de Protagonismo Jovem com o João Alkimin, Julia Campos e Paulo Fisch e o que eles estavam nos ensinando era tão intenso, que lembro de ter chamado nosso fotógrafo oficial, o Nicholas, para fazer fotos em outras salas e ele dizer “mas está tão bom aqui… preciso sair agora?”, e então ficamos assistindo até o fim. Enquanto isso, em outra sala, nossos 9 mentores presentes no evento, estavam passando por uma manhã linda, em que nos contavam sobre as coisas boas e ruins desse ano. Tudo que a mentoria havia trazido para suas vidas, quais eram os problemas que os jovens mentorados estavam enfrentando. Contanto sobre muitas vezes eles irem além da posição de mentor e assumirem o papel de orientar os jovens. E eu corria entre uma sala e outra, sem poder ficar muito tempo em um lugar só, mas vendo que todos estavam ali, presentes… vivendo nosso encontro na sua máxima potência. Depois, os jovens construíram respostas para perguntas como “Para que serve a ciência?”, “Quais são as qualidades mais importantes de um jovem cientista”, “Quais foram as maiores dificuldades que encontrei ao desenvolver um projeto científico”. E na sala dos mentores, eles liam cartas escritas por seus mentorados, em uma surpresa gentilmente preparada pela Fernanda, que fez os mentores transbordarem emoção em forma de lágrimas. Entrando na sala, pude ouvir sobre histórias que eu jamais soube ao longo do programa, como a mentora que não iria vir para o evento, mas cujas mentoradas pagaram a passagem com o dinheiro de um prêmio que haviam recebido pois não faria sentido para elas viverem esses dois dias longe de alguém que as havia transformado. E então, eu olhava nos olhos dos mentores… pessoas incríveis que eu não sabia como haviam vindo parar no Cientista Beta. Metade deles sequer sabia que existia pesquisa no ensino médio antes do programa. Como havia tanta gente boa aceitando entrar em um sonho de olhos fechados, sem saber onde a gente iria parar… estávamos todos em mar aberto. Agradeci cada um… disse que nada disso teria acontecido sem eles. Em muitos momentos, eles que haviam me forçado a ser resiliente. Quando as dúvidas surgiam, eu pensava que tinha gente boa demais junto nesse barco, e eu não podia deixar ele à deriva, era preciso encontrar um caminho e seguir. Lembrei do dia em que recebi um livro por correio de um dos mentores junto de uma carta… foi bem no início do programa, e na carta o mentor Vinícius dizia que depois de entrar para o programa, havia se reconectado com seu propósito de vida. Foi por isso, que nesse momento da manhã, entreguei uma camiseta do Cientista Beta para cada um dos mentores presentes. Eles são e sempre serão parte disso.

Durante a tarde, o Ricardo di Lazzaro nos inspirou contando sobre sua história empreendendo inovação, falando de ciência fora do ambiente acadêmico. Tivemos a premiação de alguns jovens, e ver o rosto deles ao receber esse reconhecimento foi indescritível! A tarde estava chegando ao fim, sentamos todos numa grande roda e cada um dizia como estava se sentindo. Cada jovem, mentor ou professor que falava, era uma reafirmação de que tudo realmente havia valido a pena. Não era loucura nossa querer fazer o que fizemos. Nós havíamos criado espaço, e nada além disso, para que pessoas se conectassem com sua essência, se conectassem umas com as outras, e assim, se motivassem a fazer a diferença. Fechamos a primeira Experiência Beta com um momento de gratidão em que cada um podia ir no centro da roda e buscar um item para presentear alguém a quem quisesse agradecer. Cada abraço ali, despertou em nós a certeza de que era o momento de conectar os pontos. Recebi um abraço forte de uma mentora que disse que depois de entrar para o Cientista Beta, mudou totalmente seus planos e sua trajetória, tomou decisões antes não tomadas. E chorei junto do mentorado que abriu a carta que havia escrito para si lá no início do ano, e me disse que tudo que ele havia escrito na carta havia acontecido. Como não ter a certeza de que tudo valeu a pena? Como não acreditar que a gente precisa despertar essas mesmas emoções em todos os jovens desse Brasil que ainda não sabem que o Cientista Beta existe?

Assim foi a primeira Experiência Beta. E só quem esteve lá sabe como foi especial. Nada disso teria acontecido se eu não pudesse contar com um time incrível que fez toda a diferença. Um time que me aguentou até quando eu não me aguentava, que pegou junto, foi protagonista. Nada disso teria sido tão especial se não houvesse sido com eles. Nicholas, Fê, Mica, Gio e Gi, vocês foram sensacionais! Não teria sido possível também sem nossos mentores, sem os jovens cientistas que se entregaram demais ao que fizemos. Também não teria sido possível se não houvesse mais de 80 pessoas que nos apoiaram na campanha de crowdfunding, além do patrocínio do Daquiprafora e da WWD Group USA.

O Cientista Beta hoje encerra um ciclo. Pela primeira vez, não me sinto mais tanto em mar aberto sem uma direção. Se não há ainda quem possa me dizer qual caminho tomar, tenho a certeza de que com os marujos que entraram nesse barco, um futuro brilhante nos espera. Esse foi apenas o começo. Hoje é ainda mais verdade que o que aprendi com toda essa jornada, é que quando estamos dispostos a nos transformar, cada novo dia se inicia com um ‘Welcome to Tomorrow. Vamos juntos construir o amanhã.

Esse é o meu relato, do que foi para mim a Experiência Beta. Para cada um dos presentes, foi uma experiência diferente, mas não tenho dúvidas de que foi igualmente transformadora.

Foi tão legal que até fui presenteada com um meme que é a minha cara haha