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rever o mundo com a nossa verdade: é tempo de escutar os novos.

kayqui
kayqui
Nov 5 · 5 min read

você acredita no poder das citações? eu sou uma pessoa que passaria facilmente 30 minutos apenas pensando sobre os possíveis significados de 30 palavras entre aspas. eu amo aquelas coisas, saber quem as escreveu ou disse aquilo. atualmente, algumas dessas citações estão em risco por conta dos novos tipos de comunicação promovidos por um comportamento social que permite o diálogo através de telas. mas, sabemos que muitas das citações produzidas até hoje foram resultados de grandes momentos, experiências profundas e exercícios de pensamento e observação.

dois anos atrás, eu li uma citação que transferiu minha consciência para perto do meu coração. ‘’things don’t have edges, they have horizons.’’ eu a achei num perfil social de um estudioso da área de economia colaborativa e compartilhada — algo que também tenho muito apreço. esse pedaço de pensamento parecia não tão interessante a princípio, mas, após alguns minutos, ele me pegou. passei um tempo com ele guardado na parte do cérebro responsável por isso. também contei para alguns amigos numa tentativa de mantê-lo vivo. então, 24 meses depois, eu estou aqui escrevendo um pouco sobre uma possível resposta para o impacto que sofri naquela época. estou falando mais do que sobre o tempo.

como uma forma de satisfazer minha caminhada diária, eu me mantenho conectado com a crença no indivíduo. sob uma gama de oportunidades, claro, cada um tem um poder interno capaz de modificar ele próprio e o seu entorno. e também acredito que não precisamos de muito para prover mudanças. há a necessidade de acesso atribuída ao senso coletivo, de aprender e de se dedicar com sabedoria. há a necessidade de curiosidade. mas, talvez, ser um agente de mudança seja mais simples do que se imagina.

‘’ao contrário dos pensadores profundos, não creio que a meta última seja chegar até ao fundo da neblina, mas que, depois de rasgada a neblina, começa a verdadeira tarefa: a de tentar aprender e compreender a superfície exposta. o pensamento profundo parece ser mais superficial do que o pensamento que procura captar a superfície das coisas.’’ — vilém flusser

eu costumava compartilhar uma simples ideia a respeito do mundo: o planeta funciona como um jardim. isso pode parecer superficial, mas algumas vezes funciona. a natureza é linda, é o significado de todas as coisas que funcionam para o coletivo. jardins são lindos, representam a natureza para comunidades e indivíduos. o que seria uma cidade sem um lindo parque verde? nos jardins há muita coisa para contemplar. todos os dias eventos acontecem. não poderíamos contar todos esses eventos, verdade? a borboleta voa em plenitude, as abelhas estão sempre lá fazendo seu dever, as flores mudam de posição de acordo com o sol, um gafanhoto salta da grama em direção a uma folha, as formigas trabalham juntas, cachorros e crianças correm ao redor, pessoas colocam suas comidas e bebidas no solo para aproveitar um tempo de qualidade…

mas como todas as coisas, os jardins só se mantêm num estado de beleza porque muitos eventos acontecem em conjunto e, alguns, invisíveis aos olhos. é um todo formado por partes. é como uma orquestra. já imaginou o seu funcionamento sem um violinista? não haveria. somos partes necessárias de um todo que mantém o jardim brilhando. o que aconteceria se o jardim colorido e brilhante se tornasse apenas um emaranhado de arbustos, monocromático, com poucos insetos sobrevoando-o? nossos instintos, imagino, aclamariam por mudança. então procuraríamos nossos métodos conhecidos e o material humano necessário para recuperá-lo. imagine agora que a partir do empenho e de grandes esforços uma parte do jardim voltara a brilhar com todas suas cores. mas uma outra parte não. imagine também que com o tempo essa parte escura estivera contaminando a outra, e consequentemente o jardim estava ganhando tons monocromáticos outra vez. o que fazer?

esse conflito de pensamento me deixa aflito quando o carrego para a racionalidade, e até para o campo científico, as noções que temos de poder sobre o universo. o que sabemos hoje que realmente será eficiente em virtude de um caos? durante os últimos anos fomos guiados para manter uma vida na terra baseada em diversos princípios do conhecimento, da base da consciência desperta que temos, e que nos levaram até onde estamos.

em uma perspectiva, o nosso planeta está caminhando para se tornar um jardim monocromático que durante os últimos tempos sofreu diversas interferências no caminhar ao espaço brilhante. e não me parece que tenhamos soluções para os problemas de um todo e em suas partes. aparentemente as pessoas não questionam as coisas como tendo outras respostas e talvez esse seja o principal ator do não saber. estamos sempre baseando o nosso agir sob as mesmas premissas. há uma confusão de ideias antigas. seria o momento para pensar no novo? será que atingimos as fronteiras de alguns pensamentos?

‘’ é verdade que nós usufruímos de um tempo fantástico, um tempo em que temos acesso instantâneo a mais variada e infinita informação. mas temos a tendência a confundir ideia nova com informação recente — não é a mesma coisa. e muitas vezes as ideias que já temos impedem que novas ideias possam surgir. essas ideias parecem entidades cansadas que dormem na cama da memória. cada vez mais, nós somos quem já fomos. ‘’ mia couto

não tenho respostas para essas perguntas, nem certeza de que isso está acontecendo. há muito o que buscar no mundo, na superficialidade da camada do jardim exposto a todos nós — e há muita coisa para observar, muito mais do que os antigos criadores de citações haviam em face. resgatei aquela frase e senti o gosto do sumo. percebi no amargo um significado doce: quando olhamos para os horizontes, estamos apenas nós e a vista infinita desfrutando, um do outro e suas presenças. há indícios na quietude. nesse momento há, também, uma verdade em jogo, a nossa. julgaremos o horizonte sob os nossos conhecimentos e valores, então, sob a nossa verdade. a verdade que faz de cada indivíduo um diferente do outro e, ao mesmo tempo, uma parte do todo. a verdade que fez com que tantas citações fossem escritas até hoje. onde gastamos tantas e tantas aspas. a verdade que observa e testa e que, assim, nos traz o novo.

talvez seja o momento para escutar, observar, testar e escrever novas citações. um momento de jogar com a virtuosidade dos indivíduos, de olhar para os horizontes. há muito o que descobrir e temos que aproveitar o nosso, ainda, colorido jardim. certa vez eu li: ‘’o que resta é sempre um princípio feliz de alguma coisa.’’ agustina bessa-luis

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kayqui

tento manter os olhos abertos para o que importa.

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