Kang Joo Eun (Shin Min Ah) e Oh Soo Jin (Yoo In Young)

Oh My Venus e o feminismo na Coreia do Sul

Relato de quem não esperava nada mais do que uma comédia romântica clichê, mas descobriu uma Coreia feminista

Sinopse: “Em um esforço para sustentar sua família, Kang Joo Eun (Shin Min Ah) tornou-se uma advogada viciada em trabalho sem qualquer consideração pelo seu bem-estar pessoal, ficando com excesso de peso, sem atrativos e deprimida no auge de sua vida. Joo Eun vai atrás de Kim Young Ho (So Ji Sub), um personal trainer de renome, que considera a saúde uma questão de bem-estar pessoal. Pode Yong Ho com sua teimosia perfeccionista fazer com que Joo Eun tenha o seu corpo e coração de volta em forma?”. [Fonte: DramaFever]

Os protagonistas do k-drama: Kang Joo Eun (Shin Min Ah) e Kim Young Ho (So Ji Sub)

Clichê né? Eu também achei. Uma mulher com maus hábitos e fora dos padrões de beleza precisa que um cara brote na sua vida para dar um jeito nela e ainda se tornar seu grande amor. Esse é o tipo de enredo que depois de mulheres se libertarem das amarras dos estereótipos de comédia romântica, julgamos e criticamos do começo ao fim.

Elenco principal de Oh My Venus, da esquerda para direita: Kang Joo Eun (Shin Min Ah), “John Kim” Kim Young Ho (So Ji Sub), (So Ji Sub), Im Woo-Sik (Jung Gyu Woon) e Oh Soo-Jin (Yoo In Young)

O audiovisual sul-coreano

A Coreia do Sul tem uma cena audiovisual muito ativa e de filmes reconhecidos, como Oldboy (2003), porém o grosso da sua produção está nas séries: os famosos k-dramas, ou doramas, que recebem esses nomes pela eterna associação aos gêneros dramáticos.

Confesso que não sou uma especialista em k-dramas, pelo contrário, passei a assistir séries sul-coreanas há pouco tempo e só tenho quatro na lista de vistas. Três delas com o mesmo ator: So Ji Sub. Foi amor à primeira vista desde Sorry, I Love You (2004), um dramalhão, mas me apresentou um ator que traria boas surpresas depois. E foi procurando seus trabalhos recentes que encontrei o k-drama que me surpreendeu positivamente: Oh My Venus, da sinopse acima.

Já não achava mais So Ji Sub só um rostinho bonito desde Master’s Sun, quando fiquei pasma com sua ótima atuação como um rico dono de shopping center, Joo Joong Won. Ele é uma espécie de Reynaldo Gianecchini coreano, o cara que começou sua carreira como modelo e depois se tornou ator. No k-drama de 2013, que mescla sobrenatural, humor e claro, drama, So Ji Sub ofereceria uma interpretação tão boa que terminaria por “apagar” a protagonista e seu interesse romântico, Tae Gong Shil. Não diminuindo o bom trabalho que a atriz Gong Hyo Jin faz na série, mas apesar da química e evolução do casal, em Master’s Sun ela seria mais o interesse romântico e mulher que precisa (sempre) ser salva, e ele o cara rico, bonito e (no começo) insensível que a salva, o macho alfa. Assim, cai no clichê de muitas histórias românticas da ficção, em que mulheres aparecem como pessoas que precisam de um homem para se reerguer. E eu esperava essa mesmice de Oh My Venus.

Kang Joo Eun e Kim Young Ho no início da série. Ainda vemos uma menina indefesa e sem surpresas.

Mas não foi o que aconteceu! Oh My Venus superou todas as minhas (poucas) expectativas e de bônus me mostrou, e despertou interesse, por um lado da Coreia que eu não conhecia: o lado feminista. O enredo não é exatamente inovador, os lugares-comuns ainda estão presentes, como as cenas românticas e açucaradas, e os episódios extremamente dramáticos (aqui mais para os últimos capítulos). Mas vamos por partes.

Sobre a protagonista

Ela rouba não só a cena, mas a trama inteira. No decorrer da história e no desenvolvimento da personagem. Acredito que é mérito de Shin Min Ah, muito querida por fãs e críticos, e conhecida por boas atuações. A maneira como ela utiliza seu bom trabalho para o crescimento de Kang Joo Eun faz toda a diferença no resultado final, criando uma verdadeira protagonista, acompanhada de um galã que serve mais de alívio cômico dentro de uma dupla com muita química. Sendo esse também um ponto positivo da série. O elenco é bom e se complementa na dose certa.

Os meninos de Joo Eun: Henry Lau (Kim Ji Woong), Choi Jin Ho (Min Byung Wook), Kim Young Ho (So Ji Sub) e Sung Hoon (Jang Joon Sung)

Um primeiro detalhe que me chamou atenção foi o de que Oh My Venus fala do emagrecimento de Kang Joo Eun do ponto de vista de sua saúde física e não só como adequação a padrões estéticos. Ela costumava estar dentro dos padrões que a sociedade impõe como belo: magra, alta, cabelos pretos longos e tendo até covinhas na bochecha para aumentar o charme. É de sua “juventude de beleza” que vem o nome do programa: seu apelido era Vênus de Daegu, por sua aparência e nome de sua cidade natal.

Kang Joo Eun ainda estudante e “bela”

Passam-se quinze anos, e além de ter um estilo de vida degradante, com excesso de trabalho, noites mal dormidas no sofá e péssima alimentação, a protagonista é diagnosticada com hipotireoidismo, uma insuficiência na atividade fisiológica da glândula tireoide, o que lhe causa baixa taxa metabólica e perda de vitalidade. Por isso, não adiantava quantos exercícios o personal trainer (So Ji Sub) e sua equipe (Henry Lau e Sung Hoon) lhe pedissem, ela não emagrece. Até que um dia a advogada passa mal e desmaia, durante entrevista ao vivo na TV. Levada ao hospital e submetida a exames, encontram os problemas na tireoide e então tudo faz sentido.

Kang Joo Eun em mais um estressante dia de trabalho como advogada

Isso foi motivador para continuar assistindo. Ver a determinação de Kang Joo em aprender a conviver bem com a doença a partir de uma rotina — remédios, alimentação controlada e exercícios — me fez refletir sobre todos os maus hábitos que tenho no meu dia-a-dia e o quanto são negativos para a saúde. Tudo acontece pelo próprio esforço da moça, só com supervisão de John Kim.

Um detalhe que vale ressaltar: Kang Joo Eun é advogada, e no começo da série vive para o trabalho, logo só a vemos em cenas no escritório ou em casa dormindo de pijama. Mesmo quando era mais jovem e “bonita”, ela sempre levou a carreira muito a sério e gosta de mostrar essa seriedade através da roupa, sempre sendo formal, não por ser gorda, mas porque ela gosta. Então, conforme ela vai emagrecendo, isso não muda, ela não passa a usar “roupa de magra” ou ficar mais sensual. Continua formal, é um traço da personalidade dela enquanto advogada. Esperava que fossem mudar drasticamente o visual dela depois, mas não. Lembro de notar muito isso, ficar procurando diferenças, mas no máximo ela colocou uns terninhos mais bonitos e passou a usar sapatos mais altos. E mesmo nas cenas de academia, Joo Eun usa roupas fechadas, do início ao fim, iguais ou parecidas as dos rapazes que a treinam.

Na verdade, isso é também uma questão cultural: Coreia do Sul tem padrões de comportamento e para vestir diferentes das brasileiras e/ou ocidentais. Coreanas usam saias super curtas, mas blusa decotada de jeito nenhum. Assim como nada de “roupas fitness” e sexualizadas na academia, tanto para os homens como mulheres.

Ela não encontra a felicidade por ficar magra, encontra atualizando sua vida, abandonando um relacionamento falido, e tendo uma vida mais saudável, de corpo e mente. Em alguns episódios Joo Eun não deixa de comer o que gosta porque engorda, e ainda obriga todos a comerem, o que ela intitula de “dia da Joo Eun” Aliás, super spoiler: ela não chega ao fim magra. Ironiza-se a falta de adequação dela — mesmo com mudanças — até o fim. Oh My Venus chega a debochar dos padrões num nível, que até sexualiza mais o personagem de So Ji Sub do que a de Shin Min Ah.

Joo Eun (Shin Min Ah) começando mais um dia com rotina de exercícios e tratamento. John Kim (So Ji Sub) passar a ser um apoio perante a determinação da protagonista

O feminismo dentro da série

Kang Joo Eun tem uma personalidade impetuosa essencial para as abordagens feministas dentro da série. Como advogada, ela tenta — contra a vontade dos interesses da empresa onde trabalha — ajudar mulheres em casos de violência doméstica, abusos e assédios. A própria é assediada e perseguida por um vizinho stalker, e no episódio em questão, o caso vai parar na delegacia e o tratamento que ela recebe não é dos melhores. Risadas e ironia por seu depoimento, e comentários de que ela não tem fatos o suficiente para registrar uma ocorrência de fato, mesmo o cara invadindo a casa dela! “Vamos lá, não precisa acusar o cara. Ele pode perder o emprego por causa de um deslize, pode permanecer preso por isso. Você nem foi estuprada de verdade, não houve agressão. E quem iria querer te abusar, olhar só pra você!”. Diz um dos policiais.

“Minha boa aparência se foi, mas minha inteligência continua comigo”

Fora a cena na delegacia, vão surgindo vários outros momentos interessantes de temática feminista, como Kang Joo decidindo investigar mais a fundo um caso já arquivado de violência doméstica, em que uma mulher ficou anos presa, por em legitima defesa matar o marido que a espancava. Na cena, um personagem masculino cita que antes não existia a ideia da “mulher como vítima”.

Oh My Venus só é feminista pelas ações da protagonista? Não! A série tem seu enredo apoiado principalmente em personagens femininas em posição de poder. A mulher mais poderosa da história é Lee Hong-Im (Ban Hyo-Jung), avó de Kim Young Ho e dona de uma grande rede de hospitais. A mãe da advogada cuidou dos dois filhos — Kang Joo e o irmão mais novo — sozinha após a morte precoce do marido, devido a falhas de segurança no emprego. A melhor amiga da protagonista, Lee Hyun-Woo (Jo Eun-Ji), é divorciada e dona do seu próprio restaurante. E a empresa de advocacia contrata como vice-presidente Oh Soo-Jin (Yoo In Young), antiga amiga de graduação de Kang Joo, que reaparece como sua chefe e “rouba” seu ex-namorado, Im Woo-Sik (Jung Gyu Woon), homem de negócios, antes um nadador profissional e namorado da Vênus de Daegu por longos 15 anos, terminando o relacionamento logo no começo do k-drama.

Oh Soo-Jin (Yoo In Young) ainda estudante de direito

A personagem vice-presidente, interpretada pela atriz Yoo In Young, traz outras reflexões sobre dificuldades enfrentadas pelas mulheres. Ainda que tenha encarado as mesmas situações que as demais colegas, Oh Soo Jin inicialmente não demonstra empatia nenhuma por suas companheiras de gênero. Já esteve acima do peso e sofreu maus tratos psicológicos que continuam a atormentá-la. Seu comportamento negligente muda durante o k-drama e ela contracena com Shin Min Ah um dos melhores momentos feministas da série, quando ambas advogadas defendem uma mulher num caso de abuso sexual e estupro pelo ex-namorado. Para Oh Soo Jin ainda caberá uma discussão do quanto mulheres inseridas no mercado de trabalho abrem mão de constituir famílias (casamento, filhos) em decorrência da carreira profissional de sucesso.

Oh Soo-Jin (Yoo In Young) já advogada e vice-presidente

O contexto social de mulheres sul-coreanas

Eu tinha consciência de que a situação das mulheres orientais não é boa. Japão, Coreia do Sul e China, por exemplo, são países altamente patriarcais. Apesar de muita gente não ter nem ideia disso, focando somente no potencial econômico e tecnológico desses países. Oh My Venus me levaria a pesquisar esses costumes ainda mais a fundo, e o que achei não foi animador.

Dados de 2014 da Global Gender Gap Report (Relatório Global de Diferença Entre Gêneros) incluindo 144 nações — comparando as diferenças de tratamento entre homens e mulheres — mostram a Coreia do Sul na 117ª colocação e Brasil na 71ª. O relatório avalia participação econômica, educação, poder político, saúde e sobrevivência. Outra pesquisa, do Fórum Internacional de Economia, mostra a Coreia do Sul ocupando a 111ª posição no ranking de igualdade de gênero, dentre 136 países. O único país desenvolvido em uma posição tão baixa da lista.

Segundo Umi, do blog Na Terra do Kimchi— “Uma mulher segurando um diploma tem menos chance de conseguir um emprego do que um homem na Coreia. Entre as nações mais desenvolvidas do mundo, a Coreia do Sul atinge o último lugar de mulheres graduadas empregadas. 29% mais homens são empregados. Além da pressão que elas sentem para largarem seus empregos quando têm filhos, mesmo que elas não queiram e estejam preparadas para lidar com a vida de mãe e trabalhadora”. Coreia do Sul tem uma das menores taxas de natalidade do mundo, reflexo das mulheres se focando em sucesso e estabilidade na carreira profissional, deixando de lado planos que incluam casamento ou filhos.

Somando tudo que encontrei em números e história do país, pude entender o porquê da série tratar isso de maneira tão lenta e gradual. Demorou para cair a ficha, foi quase no final, depois de muito “feminismo à conta gotas” durante 16 episódios, então admiti: pois é, assisti uma série feminista, da Coreia sim! Parece que o assunto é tão polêmico por lá, que só assim poderiam falar a respeito, discretamente, da forma mais sutil possível. Isso numa nação desenvolvida e com uma mulher na presidência, a senhora Park Geun-hye.

Estão sentindo o dejá-vu? A sensação de já vi isso antes em algum lugar? País com presidente mulher, mas que continua tratando mulheres sem respeito e em situação de inferioridade. Notamos assim que muitas mulheres pelo mundo enfrentam problemas bem parecidos com os nossos. Situações pelas quais eu, você, sua mãe, sua avó, suas amigas e demais mulheres, todas passamos ou ainda passaremos. Sejamos empáticas, reconhecendo que o mundo precisa da igualdade de gêneros, não só no vizinho do lado, mas também no que mora longe. Tenhamos a determinação de Kang Joo Eun e a capacidade de entender depois como Oh Soo Jin. Aprendendo juntas, chegaremos longe.


Atualização em 13/03/2017: A Corte Constitucional da Coreia do Sul aprovou no dia 10 de março de 2017 o impeachment da presidente Park Geun-hye, envolvida em um escândalo de corrupção. Um novo presidente deve ser escolhido em 60 dias a partir dessa data. O país vive sua maior crise política de sua recente democracia com apenas três décadas.


Yoo In Young e Shin Min Ah durante uma premiére da série

Fontes:
Na Terra do Kimchi
Sarangingayo
Viki

Recomendo a leitura:
As Mulheres na Sociedade Coreana: Um panorama socioeconômico


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