104- Entrevista

Keli de Paula
Jul 21, 2017 · 6 min read

Na primeira vez que segurei um baixo em minhas mãos eu não fazia ideia de como aquilo mudaria a minha vida para sempre. Quer dizer, eu sempre gostei de musica, ouvia rock desde pequeno por influência dos meus pais, de alguns tios e até mesmo amigos. O rock estava explodindo naquela época, e tantas novas ideias foram apresentadas ao mundo, tanto som, tantos acordes.

Foi como se acendesse uma luz dentro de mim, a minha cabeça se abriu para algo totalmente novo. Eu mau sabia como devia segurar, como fazer para tocar e ainda assim foi incrível eu fiquei por horas tentando tocar alguma coisa que parecesse musica, e depois ouvindo o Isac tocar, o tio do Neto. O meu baixo hoje é como uma extensão dos meus braços, como um pedaço de mim que vez ou outra pode ser desplugado do corpo.

Eu ensaiava toda sexta na garagem de um amigo, a gente tinha colado uns pôsters na parede; do Jimi Hendrix, The Doors, do Guns e outros, gravava umas fitas k7 para poder ficar ouvindo as musicas, porquê naquela época não existia internet, nem nada desse tipo, e ouvíamos aos discos da mãe da Vanessa que ela pegada da loja escondida. Ela esteve com a gente desde o começo.

Era como se a gente se apresentasse pros grandes nomes do rock pedindo permissão para expor a paixão que eles despertaram dentro da gente. Aos dezessete anos eu já sabia que aquilo seria o centro da minha vida, só não sabia ainda que eu ganharia o mundo e ficaria tão famoso com isso.

Eu nunca toquei por dinheiro, não pensava em ganhar dinheiro com isso. Nossa primeira banda se apresentou por diversas vezes sem receber nem um centavo, e a gente estava feliz mesmo assim. Hoje eu sinto falta de toda aquela simplicidade, sabe? Chegar em algum bar qualquer, afinar o som, testar a acústica e tocar até não aguentar mais com a empolgação que quem toca para milhares de pessoas num estádio mesmo estando num lugar desconhecido com apenas umas trinta pessoas bêbadas te assistindo. Foi num desses bares que eu conheci o Mateus, e ele está com a gente desde então.

O resto foi muito de repente. A gente usou toda a grana que tinha e até a que não tinha para divulgar a banda. Fizemos alguns folhetos e espalhamos por toda a cidade, tocamos numa praça no centro até a policia aparecer e manda a gente embora, ameaçando nos prender por pertubação do silêncio, ou alguma coisa do tipo.

No final de 93 a gente já estava se apresentando em lugares mais conhecidos, firmamos a banda com a formação original, porquê antes disso qualquer um poderia tocar ou cantar quando bem entendesse. Amigos, o meu primo que até ficou com a gente por um tempo, mas depois resolveu que tinha que estudar para se formar professor. E fomos nós quatro; eu o Rafael, o Luciano e o Neto. Quando tocamos a musica que a Vanessa escreveu e todo mundo gostou, as pessoas começaram a pedir pra gente tocar em toda apresentação, e nós começamos a introduzir algumas outras que eu e ela compusemos juntos, a banda foi ganhando identidade. A gente parou de fazer covers e começou a apostar no nosso estilo, o que parecia estar agradando o pessoal. Foi então que a gente foi convidado para abrir um show grande que ia acontecer la na nossa cidade, e pra nós foi uma honra né, um privilégio. Nos apresentamos pra eles, conversamos, foi incrível.E depois eles nos convidaram para abrir o próximo show também, e logo depois toda a turnê. Nós aceitamos na hora, nem pensamos nem questionamos nada. Só perguntamos quando deveríamos estar prontos e onde era pra esperá-los.

No final da turnê no Rio de Janeiro eles tocaram duas musicas de autoria nossa com a gente, foi quando um produtor nos ouviu tocando e gostou, e então a gente assinou contrato com a gravadora. Eles lançaram nosso primeiro disco. De repente nossa musica começou a tocar nas rádios, e nós eramos convidados frequentemente pra tocar em todos os lugares, para ir na televisão e tudo mais.

Começou o assédio dos fãs o que foi muita loucura, mas a Vanessa sempre foi muito tranquila sabe, nesse meio que a gente vive sempre foi meio assim, mais garotas do que a gente daria conta. Elas te vêem tocando algum instrumento e pronto parece um tipo de encantamento. Eu falo isso porque a gente é feio, e sabe que é feio. Olha pro Luciano, não fosse aquela guitarra, não sei não hein, mas por ela estava tudo bem. O Luciano e ela não tinham nada sério naquela época. Eu sei que eles ficavam juntos algumas vezes. Já vi ela saindo do quarto dele de madrugada e voltando pro dela enrolada num lençol por muitas vezes enquanto nós viajávamos, mas eles sempre negaram qualquer tipo de relação. Brigaram muitas vezes, só que eles sempre vão ser o casal da banda, entende?

Na primeira vez que enchemos um estádio de futebol foi absurdo. Nós mau podíamos acreditar, eu quase não consegui tocar aquele dia, minhas pernas, meus dedos não me obedeciam, mas por fim deu tudo certo. Se o Neto não estivesse tão alto naquele dia, não sei se ele teria cantado. Pode não parecer sabe, mas ele é muito tímido. Acho que eu sou o mais falante da banda.

Jura? Bom, isso eu não sei te falar, eu sou só um cara com um baixo na mão e um amor enorme pelo que eu faço. Quer dizer, olha pra gente agora, um contrato com uma gravadora grande, estabilidade na banda eu toco com meus amigos, a gente ta vivendo nosso melhor momento entende?

Poxa, ser capa da Rolling Stones! Uma puta honra. Nos preparando agora pro primeiro show fora do país pra divulgar o álbum novo, três semanas antes da estréia os ingressos já estão esgotados, está tudo perfeito. Acho que nem mesmo nós tínhamos sonhado com algo tão grande assim.

Daqui pra frente? Bom, eu não sei, a gente não planeja muita coisa não sabe. A gente meio que deixa rolar.

Ah, sim! Isso não tem como negar né, a gente se consolidou sim na musica, mas a nossa essência ainda é a mesma. A gente toca com a mesma paixão, o mesmo encanto e a simplicidade que tocava na garagem, só que pra mais pessoas. Bem mais pessoas agora. E é encantador, saber que nossa musica conseguiu alcançar tanta gente.

Sim sim, nós pretendemos continuar sim, na lista das musicas da turnê nova a gente manteve três covers. A galera gosta sabe, e pra gente é do caralho. Não tem muita fórmula mágica não. É fazer o que gosta, da forma que gosta. Se você toca com paixão, as coisas simplesmente acontecem, o tempo se encarrega de tirar quem não é pra ser do caminho, e te lapida o melhor que pode pra te deixar preparado. Você tem que ter amor no que faz, pra que aquilo te dê prazer, caso contrário não dará certo, porquê por mais que aos olhos dos outros tudo pareça ser muito glorioso, e em partes até que é mesmo, é muito massante e exaustivo. A gente chega a se apresentar 2 vezes por noite, vive na estrada por meses e a vezes é bom estar em casa sabe.

Fora a banda? Não sei. Acho que quando a gente não está tocando, eu sempre estou ouvindo musica, ou tentando criar musica. Sim, é verdade, mas não é nada muito sério não, andei algumas vezes durante os shows até, e cai uma vez em cima do braço. Me machuquei e quase não dei conta de tocar, então meio que aposentei o skate. Deixo mais pras horas de descanso mesmo. É, ela costuma andar de patins comigo as vezes, mas ela se dedica mais nisso que eu, por isso ela é melhor, ajuda ela a se inspirar pra compor.

Tocar? Claro. Vamos de musica nova então? Fechou.

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Keli de Paula

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palavras são erros, e os erros são meus....