17 - Partir

Não me parece muito digno escrever sob o triste fim (que eu tive o desprazer de presenciar) de uma jovem tão bonita quanto era Teresa.
Mas quem sou eu pra decidir quando e como uma pessoa vai morrer. 
Só não gostaria que tivesse sido assim. Muito menos, que eu tivesse estado lá, menos ainda que eu fizesse parte disso.
Mas é isso que se faz quando você é socorrista. Você entra a todo pique numa ambulância de bombeiros e vai de encontro à morte.
Quando eu cheguei, deu pra ver de longe que a coisa era feia. Algumas pessoas iam abrindo espaço na rua, outras se sentavam na caçada pra tomar um pouco de fôlego.
Acidentes de madrugada, noite de chuva, a palavra tragédia está sublinhada em grandes letras ocultas nos sub capítulos do destino.
É, eu já esperava o pior. Só não esperava que fosse tão pior.
Marcas de frenagem na pista, estilhaços de vidro no chão, o carro certamente tinha capotado.
Ouvindo os murmúrios das pessoas que rodeavam o veículo uma pessoa já havia falecido, e quanto a outra, não teria a menor chance.
Que Deus a leve logo. -pensei.
Lembro-me de uma vez quando fui atender um chamado na rodovia 35, saída oeste da cidade. Um carro capotou e três pessoas morreram. Uma das duas crianças que estavam no banco de trás foi arremessada pra fora do carro, a outra se chocou no para brisas. A mãe ficou presa nas ferragens. O lado direito do carro foi retorcido como uma lata de refrigerante quando a gente esmaga com os pés.
Nós conseguimos tirar o motorista, que ficou do lado de fora enquanto tentávamos retirar o menino, mas a gasolina vazou e acabou entrando em combustão. A ultima imagem que ele teve da mulher e dos filhos foi dos corpos queimando, pouco antes de entrar na ambulância. Me pergunto até hoje qual das almas morreu primeiro. A do pai; ou do restante da família.
É fácil identificar um acidente com mortes. As pessoas geralmente evitam de ficar, embora queiram sempre ver. Quero dizer, você sempre passa devagar com o carro quando tem algum acidente, pra ver se alguém se machucou. E quando a resposta é sim, você mata sua curiosidade e vai embora logo.
Ninguém partilha desgraça. Quando você morre, você está sozinho.
Quando o carro parou e eu desci, foi como submergir em um aquário. Os sons à minha volta foram abafados, e respirar se tornou uma tarefa um tanto quanto difícil.
Eu conhecia aquele carro.
Procurei pela placa no que restou do carro com as rodas para cima, para constatar o que eu já sabia. E corri, desesperadamente o mais rápido que minhas pernas me permitiam naquele momento.
A minha primeira reação foi de tentar fazer alguma coisa para ajudar. Tentar me lembrar do que nos ensinaram no curso. Tentar me lembrar do que eu já sabia, do que eu vinha fazendo há mais de vinte anos.
Eu vi muitas mortes na vida, mas nada havia me preparado para aquilo.
Eu via vultos passando à minha volta, meus companheiros reagindo aquela situação, enquanto eu permanecia estático, ajoelhado ao chão.
Eu tentei chorar, eu tentei gritar, mas era como se eu tivesse ficado oco. Sufocado por dentro, e nada nunca mais fosse sair de lá.
Quando consegui por fim emergir daquele golpe que me pegou de susto, eu corri de encontro a ela, e segurei sua mão fria enquanto os paramédicos a entubavam.
No caminho até o hospital, embora muito machucada ela acordou. É o que os médicos chamam de intervalo lúcido, você fica acordado por um tempo antes de partir.
Eu não soltei das mãos dela por nem mesmo um segundo. 
E a última coisa que ela fez antes de fechar os olhos (pela ultima vez) foi me pedir desculpas.
E enquanto as sirenes ecoavam nas ruas quase desertas da cidade até aquele maldito pronto socorro, eu tentei me lembrar da ultima conversa que eu tive com Teresa:
-Promete que vocês não vão beber e dirigir? Promete que não vão voltar muito tarde?
-Pode deixar senhor Martim, eu vou tomar conta dela.
Não há um dia em que eu não sinta falta da Julha. E nem um dia que eu não sonhe com os olhos culpados de Teresa por tirar minha filha de mim.

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