27- Quem cala….

-Não dá. Não aguento mais, chega disso!
-Que foi? Porquê tá me tratando assim?
-Não sei. Juro que não sei.
-Marcelo, não faz assim.
-Poxa Bruna. Olha pra mim? Eu sou um crápula com você. E você não consegue nem ficar brava comigo. Grita comigo. Pelo amor de Deus.
-O quê?
-Me xinga, me manda embora.
-Você quer que eu faça isso?
-Você deveria fazer isso.
-Por que?
-Porque eu mereço.
-Que que você quer de mim?
-Amor!
-Mas, você já tem.
-E morro por isso todos os dias.
-Marcelo…
-Não Bruna, é sério. O que que tem de errado comigo? Eu devia estar em outro lugar agora, me concentrando em outra coisa. E não ter te arrastado pra cá. Eu tinha que estar lá; com ela. E não aqui ferrando com tudo.
Silêncio.
-Bruna, espera. Não chora. Não foi assim que eu quis dizer.
-Mas agora já disse.
-Você sabe que isso tudo é um erro.
-Isso tudo sou eu Marcelo.
-Tá vendo, é disso que eu estou cansado.
-De mim?
-Dessa situação. É muito peso pra equilibrar, e eu não sou malabarista. Quando minhas palavras fazem tanto a diferença, e eu tenho que ficar medindo pra conversar.
-O que você quer dizer com isso?
-Que qualquer coisa que eu disser, pode incandescer ou arruinar seu dia.
-Então escolha as certas.
-Quais você quer ouvir?
-As que você quer falar. Não as que você acha que não vão machucar ninguém.
-Difícil.
-Difícil o quê?
-Só você querer ouvir. Não aguento mais.
-Então resolve.
-Não posso.
-Como não?
-Você não entende.
-Tem razão. De verdade eu não entendo. Você me liga, me traz aqui. Arranca minha roupa, trepa comigo e agora me manda embora, e ainda joga todo esse remorso em cima de mim pra me cobrir à noite.
-Bruna, espera.
-Não Marcelo. Quer saber, pra mim já deu.
-Não fala assim.
-Só estou fazendo o que você pediu, lembra? Estou gritando com você. O que mais você quer?
-Quero que você fique. Mas quero que você vá. Olha pra mim Bruna? Eu não te mereço. 
-Para de se fazer de coitado.
-Que que tem de errado comigo? Porquê eu faço essas coisas com você?
-É só resolver. E esse tormento acaba pra todo mundo. É só resolver Marcelo.
Silêncio.
-Viu, você não vai fazer nada. Então eu vou facilitar pra você.
-Não é isso.
-É sim. Mas tudo bem. Não precisa ir, deixa que eu vou.
-Espera Bruna, eu te levo.
-Não. Não estou indo embora daqui. Estou indo embora da sua vida Marcelo. O dia que você resolver o que vai fazer com ela, você me liga.
-Vamo conversar.
-O nosso problema é que é tudo conversa, e não passa de conversa. E só fica na conversa. To caindo fora.
O celular toca. Era ela.
-Atende. Diz onde você está. Diz com quem você está.
-Não posso fazer isso.
-Você não pode fazer muitas das coisas que você faz.
1 ligação perdida.
-Bruna, agora não.
-E quando Marcelo? Quando? Me diz?
O celular toca novamente.
-Tá tocando.
Ele hesitou.
Ela foi em direção a porta.
2 ligações perdidas.
Ela abriu a porta e olhou pra ele. Ele atendeu o celular.
Ela voltou pra casa. Ele voltou pra ela. A diferença foi que daquela vez, ela voltou sozinha.

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