34- Delegacia

-Qualquer coisa que você puder dizer já ajuda. Se estiver tudo bem pra você. Eu sei que deve ser difícil, mas nós só queremos te ajudar. Queremos pegar quem fez isso com você
-Tá.
-Quando quiser Marcela. Como ele era?
-Ele é novo. Deve ter no máximo 40. Alto. Cabelo curto e barba um pouco grisalha. Olhos castanhos. Lábios finos. Um tipo forte, mas não de gordo, musculoso.
-E o quê mais?
-Eu não via muita coisa. Quando eu acordei já estava naquele quarto.
-Me fala de lá. Como ele era?
-Tinha uma cama, onde eu fiquei amarrada. Uma mesa e uma cadeira. Tinha trancas na janela. Esse homem sempre ficava lá, me vigiando. 
-Você ouviu algum nome? Alguma conversa?
-Ele saia do quarto quando ia conversar. Só ouvi a conversa com o meu pai, quando me deixaram falar no telefone.
-A conversa do dia 25. O pedido de resgate.
-Acho que sim. Mas ele não parecia ser um cara qualquer sabe, falava bem. Parecia ser estudado.
-Ele fez alguma coisa com você?
-Só quando eu tentei escapar. Eu tentei acertá-lo uma vez, com um garfo. Foi assim que eu ganhei esse olho roxo. Mas foi só. Fora isso ele nunca me encostou a mão.
-E o outro?
-Nunca o vi. Sei que tinha outra pessoa porque ele sempre ia lá fora conversar. Mas…
-Mas?
-Nada.
-Diga Marcela. Qualquer coisa ajudará.
-Eu acho que era uma mulher.
-Porquê você acha isso?
-Por causa do perfume. Quando ele passava pela porta, sempre voltava com cheiro de mulher. Eu sei porquê é o mesmo perfume que a minha mãe usa.
-Você tem certeza?
-Sim. Eu conheceria aquele cheiro em qualquer lugar. É um Chanel nº 5. Vocês tem alguma noticia dela?
-Como assim?
-Ela estava comigo quando…..quando tudo aconteceu. Tava chovendo, a gente tava saindo do shopping, eles nos cercaram no estacionamento. Tentaram me levar, e ela não deixou. Bateram muito nela. Ela me mandou correr; foi quando um deles tirou uma arma e me mandou entrar no carro. Eu apaguei e depois eu não a vi mais. Eu temo que ela esteja…..esteja…Meu Deus.
-Calma. Calma. Nós….ahm…..nós não temos notícias dela. Mas tenho certeza de que vamos encontrá-la também. O que mais você pode nos dizer?
-Eu acho que já disse tudo o que me lembro. Por favor, não me faça lembrar mais. Eu quero ir pra casa. Cadê o meu pai?
-Ele está a caminho. Calma. Você já vai para casa. Eu não posso te deixar ir ainda, você entende? Quanto antes você falar, melhor. Porquê está tudo fresco na sua cabeça.
-Por favor, não. Eu já disse tudo o que vi, tudo o que sei. Eu só quero esquecer daquilo tudo.
-Você tem certeza que foi tudo? Qualquer coisa Marcela, nos dê qualquer coisa com o que possamos trabalhar.
-Ele fumava.
-Fumava?
-É. Fumava um cigarro fedorento quando ficava nervoso, fumava compulsivamente até acabar. Lucky Strike. Azul.
-Marcela, nós vamos te mostrar algumas fotos e você vai me dizer se reconhece alguém, está bem?
-Posso tentar.
-Isso, com calma. Algum deles é familiar pra você?
-Acho que não.
-Marcela, precisamos ter certeza.
-Eu não sei. Foi tudo muito rápido….eu estava com medo…eu não sei.
-Calma. Você está indo bem. Não precisa chorar. Você está segura agora. Só mais essas cinco fotos e você vai ver o seu pai. Só mais cinco fotos Má. Está bem?
-Okay.
-Olha essa. Com calma…nós temos o tempo que você quiser.
-Eu só quero que isso acabe. Só quero voltar pra casa.
-Tudo bem.
-Espera!
-O quê?
-Esse. Esse terceiro. Ele estava lá. Foi ele que me carregou pra dentro do carro.
-Certeza?
-Tenho. Tenho sim. Meu Deus, era ele. A cicatriz. Tenho certeza absoluta que era ele.
-Obrigado Marcela. Você ajudou muito. Fica aqui que nós vamos mandar o seu pai entrar pra te levar embora.
Ele abre a porta e saí para encontrar a tenente do lado de fora.
-Confirmou?
-Sim. Ela reconheceu o Pedro. Foi a mãe com o amante que armaram tudo. 
-Sequestrar a própria filha? 
-Vai falar que isso ainda te surpreende?
-Tenho pena por não atingir você.
-É claro que isso me atinge. É por isso que eu estou tentando pegar esse filho da puta.