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Ela não se importava

quando ele despenteava seu cabelo ao beijá-la

ela não se importava

por ter o coração acelerado por ele naqueles minutos

como tudo que era eterno,

naquele abraço ela se sentiu infinita.

ela se sentou a frente de sua escrivaninha

e escreveu pensando nele

e assim ela desanuviou a mente

era primavera.

porque era tudo tão quente

porque ele era tão quente

e ela o via em toda parte

ela não se importou por ele preencher as musicas,

os sonhos

os cheiros

e o céu era sempre limpo

com nuvens a dançar

perto do toque macio da palma

espalmada a se segurar

enquanto entre colinas e vales

a pipa voava no ar

ela desejava

ela o desejava

ela se sentou a frente de sua escrivaninha

e bebeu olhando a lua

e assim ela o esqueceu por algumas horas

E o céu era sempre pálido

afastado dos lábios avermelhados

dos olhos as castanhos

que outrora observaram

a pipa que voava no céu

e tudo era inaudível

assim como aquela voz molinha

como as canções dele de ninar.

e tudo era inatingível

como reter estrelas que caem

pra longe se libertar

e tudo era insaciável

como todo grito mudo

que sua voz teve que calar

ela se sentou a frente de sua escrivaninha

e chorou a madrugada toda

e assim ela percebeu que o amava,

mas isso já não importava mais

ela não se importou mais com os cabelos despenteados

com as olheiras cada vez mais visíveis

no seu rosto cada vez mais magro

ela não se importou com o silencio de quem partira

e que a partira inteiro por dentro

era inverno,

porque era tudo tão frio

e sua ausência era sentida em toda parte

e ela não ouvia mais as musicas

e ela não sonhava mais.

E ela não lembrava mais do cheiro do perfume

e ela fingia que não existia

a falta dele em seu olhar

negando o amor como uma tola

esperando a dor da ausência cessar.

ela desejava

ela a desejava

ela se sentou a frente de sua escrivaninha

e dormiu debruçada nas folhas das poesias que nunca o entregara

e só assim ela descansou naquela sua ultima noite

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