Amor próprio

-Oi.
-Oi.
-Cê veio rápido.
-Eu já estava na rua.
-Senta aqui que eu vou pegar uma cerveja pra gente
-Deco?
-Oi.
-Vem cá, senta aqui.
-Ishi…é encrenca.
-O quê?
-Quando mulher fala assim, nunca é coisa boa.
-É serio Deco, não faz piada não. Eu quero conversar. Só conversar.
Ele se desarma um pouco, o respiro aliviado tirando a tensão dos ombros. Ele se esgueirou pelo balcão da cozinha e foi sentar-se ao lado dela no sofá.
-Bom, sobre o que você quer conversar?
-Deco, eu não quero mais sair com você.
O frio na espinha lhe arrepiou os pêlos da nuca e ele enrigeceu novamente. Em questão de um nanosegundo toda a calmaria daquela noite mágica se esvaeceu como a fumaça de um cigarro que se perde no ar.
-Como assim Bia?
-É Deco. Eu acho que isso não vai dar certo.
-O quê não vai dar certo?
-Nós dois.
-Como assim nós dois?
-Exatamente isso que eu estou falando.
-Pera ai Bia. Me explica porque eu não tô entendendo.
-Não tem o que entender Deco. Eu já tomei minha decisão.
A espuma do copo de cerveja murchava lenta e juntamente com a alegria no tom da voz dela.
-Do que você está falando? Eu achei que a gente estava bem.
-E nós estamos.
-E então?
Ele passa as mãos em volta da cintura dela.
-Para Deco! -ela se desvencilia do abraço mucho.
-O que foi?
-O que não foi, e nós não fomos.
-Onde você queria ir? Cê não me falou nada.
-Não é isso. É que, eu estou cansada.
-De mim?
-De nós dois.
-Porquê?
-Porque a gente nunca vai passar disso Deco. A gente sai uma vez ou outra, eu venho pro seu apartamento e a gente dorme junto. No outro dia cê nem me liga. Some a semana inteira. E volta só quando ta querendo de novo. Me chama de madrugada pra vir pra cá, só lembra que eu existo quando não tem mais nada pra fazer.
-Bia, calma.
-Calma nada. Fala que é mentira Deco? Fala que não me traz aqui só pra me comer.
Silencio.
-Ta vendo.
-Não é isso.
-Não?
-Não.
-E o que a gente ia fazer hoje? Cê mesmo falou que lembrou de me ligar porque o seu primo cancelou de sair com você.
-Cê nunca reclamou de nada.
-Eu sei. No começo era até bom. Eu nunca fiz questão, cê também não. A gente nunca se cobrava de nada e isso era o mais legal entre nós.
-E então, estragar o que está bom porquê?
-Porque eu preciso de mais Deco.
-Mais o quê?
-Mais de alguém. Eu não quero uma madrugada de sabado. Eu quero um almoço de domingo, eu quero assistir filmes em dias de chuva. Eu quero alguém pra conversar durante a semana.
-E por quê não eu?
-Porque você não quer.
-Como cê sabe, você nem me perguntou.
-Deco, ta tudo bem, não tô chateada com você. Só decidi que isso pra mim é pouco. E esse pouco pra você basta.
-Bia…
Ela se levanta e caminha até a porta.
-Não tem volta Deco.
Ele se levanta e vai atrás dela segurando a porta.
-Bia, pensa direito. A gente já sai faz tempo.
-Isso mesmo Deco. A gente já sai a tanto tempo, e você nunca fez nada pra melhorar.
-E o quê você quer de mim? Cinemas e mãos dadas?
-As vezes as pessoas precisam disso.
-E você não quer nem tentar?
-Eu tentei todo esse tempo Deco. Não deu certo. Eu só vim aqui te falar isso por que…
-Por quê?
-Porque achei que me devia isso. Eu sei que a gente não tem nada, mas eu não queria simplesmente deixar pra lá sem te contar.
-Porquê?
-Porque eu quero gostar de alguém de verdade. E pra isso funcionar eu preciso gostar primeiro de mim.
-E então você quer que eu pare de ligar?
-Sim.
-E acha que vai dar certo?
-Acho que é melhor assim.
-Bia?
-Oi.
-Fica só mais hoje.
Ela revirou os olhos, se sentindo uma boba por ter ido até lá pra terminar uma coisa que no fundo ela já sabia que não existia.
-Adeus Deco.
E saiu batendo a porta, caminou em prantos até a moto e foi embora. E mesmo que a duras penas, ela aprendeu naquela noite que tem coisas que tem mais valor. E que existem pessoas que não valem tanto a pena.
Ele ficou chateado por um tempo. Tomou toda a cerveja sozinho. Uma hora depois ligou para outra garota, pra ver se terminava a noite bem.

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