Bilbo

Ele estacionou o carro na garagem, tirando o jaleco do banco de trás e colocando sobre os ombros cansados. Mais um plantão duplo no hospital. Uma garotinha corre até ele em prantos com uma caixa de sapato nas mãos.
-Pai! O Bilbo.
-Que foi?
-O Bilbo pai! Ajuda ele.
Já não havia mais o que ser feito.
-Não tem mais o que se fazer Mel.
Lágrimas desesperadas caiam do rosto da garotinha.
-Faz alguma coisa pai. A tia Ju disse que você salva as vidas das pessoas. O Bilbo não é uma pessoa, mas eu gosto muito dele.
-Ele morreu Mel. Eu sinto muito.
-Porque ele morreu pai? Porque ele não acorda?
-A vida é assim Mel, as pessoas, os animais, as árvores. Quando chega a hora, eles morrem.
-Porquê pai?
-Eu não sei Mel. Era hora dele ir. Ele foi pra um lugar melhor, onde vão cuidar melhor dele.
-Mas eu cuidava dele pai.
As próximas palavras vieram carregadas de todo o sentimento que ele guardava dentro do peito, e a voz saiu meio embargada.
-Eu sei, mas as coisas são assim. Chega uma hora que, por mais que cuidemos e amamos, chega a hora de partir pra um outro lugar. Um lugar sem dor.
A garotinha depositou a caixa no chão e limpou os olhos com as costas da mão. Abraçou as pernas do pai e deu um sorriso com os olhos úmidos e brilhantes.
-Que foi Mel?
-Então ele vai ficar bem. A mamãe vai cuidar dele.
Os olhos do pai se encheram de água. Ele se segurou por um momento enquanto considerava abaixar e acariciar a filha. Ao invés disso, pegou a caixa com o hamster morto e colocou debaixo do braço.
-Agora vá lá pra dentro, sua tia quer lhe falar alguma coisa.
A garotinha entrou de volta na casa.
Ele enterrou o pobre bicho no jardim enquanto deixou as lágrimas há tempos guardadas saírem.
Um pouco firme até demais, mas chorar em frente a filha, ele nunca chorou.