Francisco

Aliviado por ter saído da chuva do ponto, Francisco se espremeu para passar na catraca e garantir um lugar apertado em pé, perto da porta do ônibus cheio que rumava pro Distrito Industrial da cidade. O cheiro de comida quente misturado ao desodorante. O barulho das pessoas conversando misturado ao chiado de alguns fones de ouvido e o motor ronronante da São José.
Ele se segurou com um braço só e quase caiu quando o ônibus freou bruscamente e bateu numa moto.
Ainda não havia nem amanhecido, e aquele já era o segundo ônibus que ele pegara para chegar ao trabalho.
-Atrasado.
-O ônibus bateu.
-Eu não quero saber.
E Francisco se apressou pra sair da vista do gerente, picar logo o cartão e começar a trabalhar.
A esteira acumulava os pares de sapato girando. As mãos calejadas tratavam com todo o cuidado a peça de couro que ia dando forma ao sapato.
Na mente, a soma da conta de água, de luz, do aluguel, da compra do mês. O presente de aniversário que o filho mais novo nunca ia ganhar.
-Seu Francisco?
-Oi.
-Precisa assinar a folha do atraso. Vai descontar.
As mãos tão talentosas pra manusear calçado estranharam a levesa sutil da caneta ao tingir sua sentença no papel.
Ele desfarçou o mau jeito, escondendo as mãos no bolso da calça molhada. Com vergonha pelo garrancho na escrita. Quem vai pra lida mais cedo, não tem muito tempo pra os estudos. Tem responsabilidades a cumprir.
-Xico, cê ta sabeno?
-Que foi?
-O aumento.
-Tô não. Saiu?
-Saiu.
-Quanto?
-4%
-Vish.
-É! Eu sei! Aqueles pelegos…
-Maneco, sem querer ser chato mas, já que surgiu assunto…
-Precisa nem terminar Xico, já sei. Vou te pagar dia 20 certinho.
-Precisa ser tudo duma vez não. Eu sei que não ta fácil pra ninguém.
-Nem me fale. Não deu nem dia 15 e já estourou meu limite na farmácia.
-O que aconteceu?
-Meu menino, ta doente de novo.
-Levou no médico?
-Levei. Mais de três horas esperando pra atender, chegar lá eles não poderem fazer nada.
-Mas como assim?
-Ah, deram soro e falaram que tem um especialista em Ribeirão que pode ajudar.
-Vish…mas a prefeitura vai levar?
-Agendou pra daqui três meses.
-Ah, quer saber…
-Que?
-Precisa pagar não. Usa o dinheiro pra levar ele no médico. Paga a consulta, num medico bão. Saúde nóis tem que cuidar.
-Pô Xico….brigado. Não sei nem o que dizer.
-Deixa ele ficar bão, e leva ele lá em casa pro Mateus e ele brincar.
O telefone toca.
Francisco espera até a hora do almoço pra poder retornar para a esposa, falando rápido pro crédito não acabar.
-Nóis da um jeito Rose. Nóis sempre dá. Começo de ano é fraco mesmo. Cê arruma emprego noutro lugar.
O gosto da marmita esquentada em banho-maria nunca foi tão dificil de mastigar. Embrulhou de volta no pano de prato e guardou na mochila.
Sentou na sombra da arvore que ficava na calçada do lado de fora da fabrica pra barra da calça secar.
A sua vida estava perdida, e ainda não era nem meio dia.

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