14- Janis Joplin e óleos de massagem

-Cara não sei. Não tive culpa.
-Olha pelo que eu sei, você teve lá uns 12, 13cm de culpa.
-Para de rir beiçuda e me ajuda. E, não que seja da tua conta, mas é maior.
-Sei..
-Vai, me ajuda. 
-E você quer que eu faça exatamente o quê? Eu não tenho nada a ver com isso.
-Não sei. Só me ajuda. O Erick tá chateado.
-Com razão.
-Nem foi tanta coisa assim.
-Não? Cara, você devia ir procurar um médico. Ou uma puta, pra curar esse seu problema de falta.
-Não é falta. E não é problema. Ah, que droga pipa.
-Fica assim não, daqui a pouco passa.
-Passa não. Ele tá muito puto comigo.
-Cara, cê ficou de pau duro por causa da irmã dele. 
-Eu sei.
-Na frente dele.
-Eu sei.
-No meio da sala.
-Eu sei, eu sei, eu sei. Eu tava lá.
-Ele está fazendo o que qualquer outro irmão mais velho faria. Está te socando na cara.
-Mas não foi bem isso que aconteceu. O que ele te contou?
-Mudaria alguma coisa?
-É, não foi bem por causa dela.
-Espera aí, como assim? Não vai me dizer que foi por causa do?
-Não! Claro que não. -encarou o chão- Foi por causa dos pés dela!
-Pera aí, o quê? Os pés?
-É. Não ria. Eu gosto de pés.
-Porra, toda peitudinha do jeito que ela é, você vem me dizer que foi por causa do pé dela? Tem razão mesmo do Erick estar bravo.
-É verdade.
-Tudo bem, ela é bonita. É novinha, mas eu não vou te julgar. Não precisa mentir pra mim.
-Eu não mentiria pra você pipa. É sério.
-Mesmo?
-Sim.
-Como assim?
-Bom, ela estava lá na sala e a gente tava conversando. O Erick estava procurando o DVD da Janis Joplin, porque a gente ia ensaiar.
-Piece of my heart, ele me contou que vocês estão pensando em tocar. Achei legal.
-Acho que vai ficar legal. Então, aí ela colocou o pé na mesinha da sala.
-E você foi à loucura.
-Ela estava pintando de vermelho. E tinha uns algodõezinhos separando um dedo do outro. E eu fiquei olhando. O modo como ela segurava o pé, e passava tão delicadamente o esmalte. Os dedinhos dela são gordinhos. Suaves. Pareciam tão macios.
-Tarado.
-O que eu posso fazer, não se controla esse tipo de coisa.
-Tenta pensar em algo desagradável, sei lá.
-Eu podia lembrar de você.
-Vai se ferrar.
-Acho que já me ferrei.
-Calma. Também não vai ser o fim do mundo. Dá um tempo pra ele, logo ele esquece.
-Cê acha mesmo?
-Bom, você podia tentar explicar que foi por causa do pé dela.
-E ele acreditaria? Nem você acreditou.
-Que eu saiba ele não é ninguém pra te julgar. Ele vai entender sim.
-Como assim?
-Ah, o menino Assis também gosta de umas coisas diferentes.
-Sério? 
-Sério.
-Tipo o quê?
-Cê não está achando que eu vou contar né? É coisa nossa. Mas ele gosta de umas coisas diferentonas.
-Ele gosta de vestir sua calcinha?
-Não! Credo.
-Posições?
-Não vou dizer, não sou babaca assim. Mas me fala mais desse negócio aí de pés.
-Não tem muito o que falar. É sentir sabe. Olhar pra eles, massagear, ver um encostando no outro com a ponta dos dedos, friccionando.
-Você é doido.
-Pelo que você mesma me disse, seu namorado é mais. Mas fala com ele lá. Tá bom?
-Tá bom.
E à noite quando os dois se encontraram, ela lembrou do amigo. Sentou-se na cama dele, tirou os sapatos e se deitou. E enquanto ele colocava Janis Joplin pra tocar, ela começou acariciá-lo com a ponta dos pés. 
Ele parou estático em pé diante dela, observando em silêncio, quando por fim se jogou na cama, pesando seu corpo sobre o dela. E entre quatro paredes a vida nunca mais foi a mesma.