O amor é uma xícara de café com leite
Ele abriu a porta do quarto com todo cuidado pra não fazer barulho, e espantou-se ao vê-lo já acordado. Bincando com as mãos como quem acabara de conhecê-las.
-Bom dia. -Disse ele estendo os braços para colocá-lo sentado.
-Bom dia.
-Dormiu bem?
-Dormi.
-Vamos tomar café? Tá com fome?
-Tô.
Ele se senta, e com todo o cuidado molha o pão na caneca de café com leite, e deposita os pequenos pedaços ensopados numa boca tão pequena e mau aberta.
-Tem que comer tudo, pra ficar forte. -Diz ele forçando mais alguns pedaços boca adentro.
-Que dia…que dia é hoje?
-Hoje?
-É.
-Hoje é terça.
-Cê não vai trabalhar?
-Hoje não. Eu disse que ficaria com você.
Os leves tapinhas nas costas são o unico conforto que ele pôde oferecer. -Tó. Acaba de tomar o resto do leite. Eu vou arrumar suas coisas pra tomar banho.
Ele se levanta e vai até o banheiro, enche a banheira. Volta pro quarto, separa as roupas, volta e retira a caneca que tombou e encharcara a cama de leite. Senta-se novamente e despe o corpo frágil e miúdo. Se põe de pé e vai auxiliando a tortuosos passos lentos no caminho para o corredor até entrar no banheiro.
De banho tomado e fraldas trocadas eles se sentam novamente na cama e ficam olhando para a tv.
-Volume.
-Oi?
-Aumenta o volume.
-Claro. Assim tá melhor?
-Tá.
-Você tá bem assim? Quer mais um travesseiro pra escorar? Quer água?
-Não.
-Ta com frio? O médico disse que não é pra você pegar friagem. Eu vou fechar a janela.
Ele continua olhando fixamente para a tv ignorando tudo mais à sua volta.
-Vamo tomar o remédio.
-Quero não.
-Mas precisa tomar. Pra ficar bom logo. Abre a boca.
-É ruim.
-Mas precisa. Por favor.
-Tá.
Ele enfia os doi comprimidos desajeitadamente goela adentro.
-Pronto. Tó, bebe água.
-Que dia é hoje?
-Terça feira.
-Ahn?
-TERÇA-FEIRA.
-E você não vai trabalhar?
-Não. Eu vou ficar cuidando de você.
-E…você é quem mesmo?
-O Antonio pai, Antonio. O seu filho.