Telefone Público

-Alô?
-Oi fia. Como que ocê tá? Tá tudo bem?
Ela segura o celular com força. Enquanto o coração acelerava a mil, ela debulhava as palavras com a leveza de um beija flor enquanto suga pólen de uma flor.
-Tudo mãe. Ta tudo sim.
-E o pessoal aí é legal?
-É sim. Bem legal.
-Já fez alguma amiga?
-Já. Ahm…tem uma menina do meu período que é legal.
(Mentira).
-Tem todos os livros?
-Tenho, tenho sim. O pessoal me indicou um sebo aqui perto. Os livros estão em bom estado e ficou bem mais em conta.
Ela enxugou os olhos com as costas da mão e sentou na cama.
-Teu pai te mandou um beijo.
-Ele tá aí?
-Não. Já saiu pra trabalhar.
-Ah! Bom, manda outro pra ele.
-Mês que vem cê vem né? Teu pai ta contando pra todo mundo que cê vai virar “dotora”.
-Vou sim mãe. Vou sim.
-Cê tá precisando de alguma coisa fia?
Ela olha em volta da casa vazia, e lembra dos três pacotes de miojo no armário e as bolachas Mabel que a mãe mandou no inicio do mês.
-Não mãe. Tô não.
-O pai vai depositar mais uma quirelinha pra você dia 20 tá?
As lágrimas que lhe escorriam dos olhos aguavam todo o amor que florescia no peito.
-Precisa não mãe.
-Precisa sim. Da procê ir tomar um sorvete ou qualquer coisa se der vontade.
-Brigado mãe.
-Tamo com saudade fia.
Ela mastigou aquelas palavras lentamente, porquê a saudade tem um apetite voraz, e aquilo teria de ser o suficiente.
-Eu também mãe. Eu também.
-Óh, o cartão ta acabano. Eu ligo de novo semana que vem tá?
-Tá.
-Se cuida fia.
-A senhora também. Bença.
-Deus te abençoe.
A filha se levanta, corre até a pilha de livros no chão e começa a estudar, tentando fazer aquilo tudo ter algum sentido.
A mãe seca as lágrimas no avental e segue o caminho do orelhão até a porta de casa. Com o coração doendo uma dor que só quem é mãe entende. E ainda sim, uma satisfação e orgulho enorme.

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