-Vô? Vem cá.
-Que foi fio?
-Olha aqui, era dessa que o senhor queria?
O senhor se aproxima de onde o neto estava sentado, e observa a tela do notebook apertando os olhos para enxergar o visor.
-Era dessa o quê?
-A vara de pescar, vô.
Ele retira o óculos do bolso da camisa e coloca de frente os olhos por um segundo, analisando atentamente enquanto a imagem tomava forma e foco diante dos seus olhos
-Tem uma vara de pescar ai?
-Tem. Bom, uma foto. Eu quero comprar uma pro senhor.
-E ocê vai comprar ela nessa caixinha faladeira?
O jovem ri.
-Esse era o plano. Mas eu não entendo nada disso, então o senhor vai ter que me ajudar. Senta aqui.
Ele pucha uma cadeira e se senta. O menino arruma a tela para que ele consiga enxergar.
-Ah sim. Tem uma vara de pescar sim.
-É dessa que o senhor quer?
-Não. Tem que ter molinete.
-Mas essa tem.
-Mas não é esse.
-Ta. Pera ai.
Ele coloca os dedos no toutch e recomeça a busca pelo site de pesca.
-Qual destas?
-Olha, apareceu um monte! Eles tem de tudo.
-Tem sim vô. -diz o menino satisfeito por ter conseguido impressionar o avô. -Escolhe uma pro senhor.
-Ta. Meche mais pra baixo que eu quero ver essa aqui óh.
Ele aponta uma no canto inferior direito da tela. Batendo o indicador na foto.
-Clica aqui vô. Óh. É aqui em baixo.
-Diacho de quadradinho, que cada hora tem que apertar num lugar diferente.
O menino gargalha.
-Ta deixa eu por pro senhor.
Ele clica na imagem e ela abre grande na tela.
-E dessa?
-É sim.
O menino lê atentamente todas as especificações da vara de pescar, para não ter chance de erro.
-Óh, essa vem com molinete, linha e mais uns anzois. Vara maciça, modelo fc33–487. É boa?
-É sim.
-Pode ser desta então?
-Desta o quê?
-Pra comprar pro senhor.
-Você vai comprar?
-Vou ué!
-Precisa não fio. O vô tem uma.
-Mas o senhor falou que não está boa mais.
-Mas ainda da pra usar ela.
-Mas só com uma o senhor não vai poder me ensinar pescar.
-E ocê quer?
-Bom, queria. Se o senhor quisesse.
-Eu quero.
-Então ta.
-Ta. Então vamos.
-Onde?
-La na loja do Maneco, ver se tem dessa daí. Não sei se vai ter não. Essa é bem chique.
-Vô, vamos comprar por aqui mesmo.
-Como?
-Online.
-É nome de loja isso?
-Não vô. A gente compra pela internet.
-E onde fica essa loja?
-Aqui no computador.
-E cadê o vendedor?
-Não tem vendedor.
-Então quem vai te vender?
-O site.
-E esse site agora fala? Recomenda? Diz que já usou, fala se é boa?
-Não vô. Olha, aqui em baixo tem todo mundo que comprou e recomendou.
-Conversa!
-Vô, presta atenção. Esse aqui é um site de vendas. Eles vendem na internet. A gente compra por aqui e a encomenda vem pelo correio.
-Mas onde fica esse tal de site? Tem aqui na cidade?
-Não vô. Ela não tem em lugar nenhum. Só na internet.
-E como você vai até lá comprar?
O garoto a essa hora já sem tanta paciencia para explicar, respira fundo encara o avô e tenta de novo.
-Pelo site oras. Funciona assim: Ta vendo a vara de pesca que o senhor quer? A gente clica em comprar, e passa no numero do cartão de credito. Então o pessoal da loja vai separar e enviar pelo correio aqui na casa do senhor.
-Mas eles sabem onde eu moro?
-Eu vou colocar o seu endereço.
-Eu não quero que essa tal de internet fique sabendo onde eu moro não. Depois vai chegar um monte de carta de cobrança, por coisa que eu nem comprei.
-Não é isso vô. É só pra receber a vara de pesca.
-Meu filho, esse povo não tem loja, nem um vendedor te atendeu. Você não vê? Não vai chegar vara nenhuma. Estão te enganando. Vamo la no Maneco, que ele vende umas varas boas. Comprei a vida toda lá. Fica perto do centro da cidade. Duas ruas pra baixo da rua da feira, uma lojinha de faixada azul.
-Mas não precisa vô. Hoje em dia todo mundo compra assim.
-Tudo por esse quadradinho?
-É vô. Pelo quadradinho.
-Duvido.
-Então espera só pro senhor vê.
E o avô fala com tom de deboche para a esposa:
-Olha Norinda, o Pedro ta falando assim que esse quadradinho dele vende varas de pesca.
A avó chega tentando enterder a confusão que acontecia na cozinha. Se escora no portal da porta e observa o marido e o neto.
-Vende e nós vamos pescar com ela no primeiro fim de semana depois que ela chegar.
-Deixa o menino Zé. Se ele diz que chega, e porque chega.
Ela volta para os afazeres na sala de costura e os deixa sozinhos na cozinha.
O menino termina a compra e poucos dias depois chega a vara de pesca pelo correio.
-Será que ta funcionando já Norinda? Já ta…ta falando? Alô?
-Está funcionando sim vô. Não precisa gritar no celular não.
-Chegou um pacote do correio aqui Pedro. Tem seu nome.
-Deve ser a vara de pescar vô. O senhor abriu?
-Não uai. Não era pra mim.
-Mas pode abrir vô. Deve ser a vara de pesca.
-Norinda, o Pedro disse que pode abrir. Abre. Abre.
A expectativa exaltando no tom da voz, e na cabeça de Pedro. Enquanto a avó provavelmente abria a caixa do correio.
-E ai vô?
-É ela Pedro. É a vara.
-E é boa?
-É sim. Nossa, é muito chique. Não, espera..
-Que foi vô?
-Ta errado. Cadê o molinete?
-Calma vô, ela vem desmontada. É só montar.
-Não é não. Ta faltando o molinete, não era esse. Me passa o endereço dessa internet que eu vou lá reclamar.

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