A doce dor de ser redator

Quem trabalha escrevendo ou tem afinidade com o que muitos chamam de “dom da escrita” deve ter ouvido durante a vida “elogios” como “ah, você tem facilidade para escrever”. Mas sinto muito ao dizer que isso é mentira. É mentira das brabas! Pois, redator/escritor/ roteirista é justamente aquela pessoa que tem mais dificuldade de escrever.

Você, por acaso, sabe quantas vezes no silêncio da noite eu fico imaginando que poderia ter colocado uma palavra diferente naquele texto que escrevi em 2014? Ou, em uma vírgula que deixei sobrando/faltando? Meus status do Facebook são todos editados, as legendas do Instagram são piores. Isso é um karma, minha gente!

Particularmente, gosto de acreditar que escrever é contar aos outros o que estou pensando. Mas, o pensamento é algo muito complexo para colocarmos num papel pautado ou digitar no Word da vida. O pensamento é mutável, por isso remexemos tanto em nossos textos, porque queremos contar pra vocês, de maneira organizada, o que se passa na nossa cabeça conturbada.

Escrever NÃO é SÓ sobre:

Entendam que coloco escrever como a forma de expressão e não apenas como o ato de alinhar palavras e que coloco, neste texto, redator como a pessoa que trabalha escrevendo.

Sendo assim, aquele que faz bem seu trabalho não é aquele que apenas sabe usar a língua portuguesa ou que vive citando os vultos da nossa maravilhosa literatura.

No caso de profissionais da publicidade, escrever é falar por personas que englobam tanto empresas de grande porte quanto políticos começando a carreira. E esse trabalho dispendioso vai além de alinhar palavras. Implica em alguns pontos que gostaria de comentar.

  • Criatividade: o ser humano é multifacetado, todo dia ele aparece com uma ideia diferente. Há dias em que quer ser empreendedor, em outros quer fazer concurso público para guardião intergalático e a gente precisa se reinventar pra falar com esse serzinho volúvel diariamente sem deixá-lo enjoado do conteúdo repetitivo. A criatividade, ao meu ver, é a capacidade de se reinventar.
  • Conversa: minha gente, eu estou batendo um papo com vocês. Se eu estivesse olhando para a carinha linda de cada um neste momento, estaria me colocando mais ou menos da mesma forma que estou me colocando agora. Não tem para onde correr, não adianta colocar enfeites e usar palavras rebuscadas. Escrever não é mais nada que uma conversa impressa.
  • Empatia: Vamos voltar àquelas aulinhas de Teoria da Comunicação? Nãaaaao! Vamos sim! A comunicação está voltada sempre para o receptor. Ponto. Não há mais nada que você possa fazer. Não adianta escrever em espanhol se a pessoa que está te lendo é inglesa. Muito além do código que você vai escolher, quando você escreve para alguém é necessário sentir as dores e os sabores dessa pessoa/público-alvo. E é ele quem dá o tom da comunicação e você, querendo ou não, terá que respeitá-lo ou não atingirá os seus objetivos de comunicador.
  • Persuasão: não vou ensinar o pai nosso ao vigário. Mas, por mais que não estejamos vendendo nada, a comunicação, por si só, é um ato de persuasão. Estamos sempre tentando persuadir nosso receptor a aceitar nossa ideia. E mesmo que a comunicação dependa do receptor, é a nossa “teoria” que queremos que seja vencedora.

Desafios existem para serem superados

Além do ato de se comunicar através da escrita ser bastante complexo, para você iniciá-lo precisa superar alguns belos obstáculos. Em um trabalho mental árduo, tentei resumir os principais desafios:

  • Ter conteúdo: para escrever bem, não temos outra saída a não ser ler muito. Ler todo tipo de material, da revista Capricho ao New York Times. Só tem referência quem pesquisou antes.
  • Ter domínio e prática: Quem amou só uma vez, não aprendeu a amar. Se você fez uma lasanha só uma vez, não aprendeu a cozinhar. É preciso prática, só domina a arte da boa culinária quem passa horas à beira do fogão, por que escrever seria diferente? É preciso ler e escrever muitas vezes para ter certeza que você ainda tem muito que aprender.
  • Vencer a preguiça e ser crítico: o nosso impulso é sempre entregar o primeiro título que vem à nossa cabeça, como aquela “sacadinha” que você acha que vai resolver o problema de comunicação do cliente amado. Mas, calma, jovem padawan! Continue praticando e se pergunte: esse título resume o que queremos comunicar? Tem real sentido para o público-alvo ou estou julgando pelo meu ponto de vista? Estou perpetuando algum preconceito, ofendo alguém? Apenas esqueça a preguiça e se questione.
  • Ter sentimento de utilidade/orgulho: de que adianta produzir, produzir e produzir e não se animar com o “filho” que coloca no mundo? Comunicar é um ato multifacetado, que precisa de dedicação e empenho. Essa não é uma área para quem não gosta do que faz. Mais dia, menos dia, a chateação pela “rotina” vai prejudicar o seu trabalho. Ou ame-a ou deixe-a..

Coisas que você pode fazer, pra fazer melhor o que já faz

Apresentei muitas dificuldades? Não se preocupe, vou agora mostrar como dou um jeitinho e tento superá-las.

Dica 1: Leia até bula de remédio e cancele a conta do Spotify

Como já disse, a leitura constante é o que norteia o nosso trabalho, quanto mais você lê, mais referências tem. Sobre a conta do Spotify, só precisa cancelar se você trabalha com publicidade, os outros podem manter suas continhas Premium. Até por que onde já se viu um publicitário que não ouve rádio, não está por dentro dos spots que a concorrência está veiculando ou que não está inteirado sobre as notícias da cidade em que mora. Não vou discutir mais. É preciso ouvir rádio, ver TV, ler outdoor. Tudo isso está incluso no papel de publicitário acumulador de referências.

Dica 2: Hum…é antissocial?

Eu ia te mandar sair de casa e conversar com pessoas. Mas as pessoas que preferem o conforto do lar e sua internet ilimitada iam me condenar. Então, a dica é praticar com as ferramentas que gosta. Existem várias páginas no Facebook como a “Só Títulos” que te fazem pensar e praticar a escrita. O Twitter também é uma boa aposta para quem quer se expressar mais (e acompanhar os memes na sua real fonte).

Dica 3: Escolha um mentor

Um mentor não é uma pessoa que vai segurar a mão e te ensinar coerência e coesão. Não se trata disso. É alguém que você admira pelas qualidades como profissional e que pode te dar lições valiosas de como agir. A escolha do mentor é vai da convicção pessoal de cada um. Por isso, não vou te dar um guia, a escolha é sua. Mas, vou falar um pouco sobre meus mentores e por que os escolhi, talvez te ajude a escolher os seus.

O meu primeiro mentor da vida é Fernando Pessoa, acompanho a obra dele desde os 13 anos de idade. Fernando Pessoa me ensinou que o poeta é um fingidor, na verdade, todo escritor é. Porque vestimos uma carapuça que não é nossa e podemos falar o que o coração realmente sente, ou não. O importante é comunicar ideias/sentimentos, mesmo que não existam.

O segundo mentor é meu paraibano favorito: Ariano Suassuna. Mais que um escritor, Ariano é para mim uma fonte inesgotável de inspiração por ter pregado tanto a valorização do que é nosso. Estudar Ariano me fez ver como devemos observar as pessoas ao nosso redor. Ele mesmo dizia, em uma de suas aulas magnas na UFPB, que não inventava nada, todos os seus personagens eram apenas retratações de pessoas reais que existiam em seu cotidiano. Copio sim, toda vez que posso, essa observação do ambiente.

A pessoa que mais leio atualmente e meu terceiro mentor é Gregório Duvivier. Os textos desse humorista trazem para a minha profissão, mais ou menos, a lição que Ariano ensinou: simplicidade sempre e a pergunta constante de “por que não escrever como falamos?”. Outra lição que tiro dos textos é que tudo tem um “conceito”, um “mote”, e que deve ser seguido até o desfecho. Esqueça essa conversa que “fulano é de esquerda ou de direita”, a boa escrita vai muito além disso, principalmente se você ainda não leu nada escrito por Gregorio. Vale apena dar uma espiada nos livros dele ou na coluna que ele publica toda segunda-feira na Folha de São Paulo.

E como boa publicitária, não poderia deixar de citar um dos expoentes da nossa profissão: Eugenio Mohallem é meu redator publicitário favorito. Textos simples, criativos e que fazem o produto parecer que está se vendendo por si só. Sempre que posso, pesquiso as coisas que ele fez ao longo da carreira e isso me mostra como vender é mais fácil do que imaginamos.

Mas já acabou, Jéssica?!

Claro que não, há muito trabalho ainda a ser feito. Depois de toda essa conversa e que enumerei pra vocês foi que comecei a perceber que ainda tenho muito a para aprender. Mas não vou desistir. Você vai?

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