Guarde a última dança para mim

Quando tudo acabar, quando soarem os sinos, quando acabar o tempo desta vida, quero que sejamos só nós dois, você e eu, face a face, um a um. É possível que não haja tempo para pensar nisso — digo, nesta vida, em seu significado. Mas talvez haja. E seremos, se tivermos sorte, só nós dois: eu, pensando em você — onde “você” é o jeito que esta vida foi e se foi, e onde “eu” sou essa coisa pensante olhando para você, no passado, em um instante, um momento, só um momento à sua frente. Talvez devamos fazer isso mais cedo, essa dança, talvez até com certa regularidade, já que pode não haver, como eu disse, uma chance real para essa última dança um com o outro, pelo menos não do modo como imagino.

De fato, essa é a melhor estratégia. Ainda tenho o que aprender com você. Talvez você também se sinta assim. Então vai ser bom girarmos e trocarmos de lugar nessa dança. Você, meu eu examinado, deve ter a oportunidade de conduzir, de me ensinar — o eu crítico — a ser menos desastrado, quando conduzir, quando seguir, quando apenas dançar, sem dizer ou pensar nada. Acho que estamos fazendo isso há um bom tempo, já. Mas nem sempre eu percebi, e nós dois somos um tanto teimosos. Deve ser por isso que somos quase uma unidade, quase um, quase um eu unificado, mas só quase. Desobedecemos um ao outro, às vezes. Até já escondi coisas de você. Suspeito que você tenha feito o mesmo: você é mais reticente do que eu, afinal. Também tentei te enganar, para que se comportasse melhor. Talvez você tenha feito o mesmo.

Falhamos porque somos quase um, mas não exatamente um? Acho que não. Pelo menos, não falhamos como outros eus falharam. O tipo de animal sapiente que somos, nosso jeito-de-estar-no-mundo vem com habilidades reflexivas sofisticadas: a capacidade de olhar para trás e para a frente, de se envolver num autoexame minucioso de cada ângulo que se possa imaginar, e de duvidar, de novo e de novo, de nós mesmos. Não é fácil tornar uma pessoa una. Nosso problema é comum.

Então, estivemos dançando juntos todo esse tempo. Ainda assim, a última dança me parece ter uma importância especial. Vamos acreditar que ela vai acontecer, que ela tem que acontecer. Então, o que quero dizer é isso.

“Querido eu, é inevitável, mas também meu desejo, que você guarde a última dança para mim. Não se importe com a falta de jeito, a essa altura já nos conhecemos bem. E tenhamos a esperança — o que me parece romântico e sensato ao mesmo tempo — de percebermos o valor ao nos abraçarmos e olharmos nos olhos um do outro. Talvez haja tempo para articular esse valor que percebemos. Talvez haja tempo para expressarmos sentimentos. Importa, ainda que não haja mente ou tempo para essas coisas, que percebamos o valor, a validade e o significado, caso tivesse havido tempo. Um olhar de relance, um beijo, a sombra de nossos sorrisos serão suficientes. Mas deve ser mais que uma simples paixão. Deve ser importante de verdade. Ela, esta vida, digo, deve significar alguma coisa de verdade. Respeito, mesmo autorrespeito referencial, deve ser garantido. Será bom ter paz de espírito, estar confortável, ter a sensação de integridade e esforço, além de reconhecer que nos divertimos um tanto. Lembre-se: se alguém realmente conhece você — lembra e conhece você de verdade — em especial o seu jeito de dançar, sou eu. Eu e eu mesmo, comigo. Cha cha cha.”

(tradução minha do epílogo do livro Self Expressions, de Owen Flanagan)