Os recrutadores — que não amavam recrutar

Todos os recrutadores modernos muitas vezes adotam um discurso ideológico que alimenta a cultura do propósito — com as candidatas. Amar o que faz, ser apaixonado pela sua área de trabalho e assim não ter que trabalhar nenhum dia. É o discurso "namaste corporativo". Não que eu não acredite que essa ideia faça sentido, pelo contrário, acredito tanto que só se deve fazer algo que realmente ame que fico triste ao ver recrutadores tratando sua área como início de carreira de Recursos Humanos apenas.

Em organizações tradicionais o recrutamento é naturalmente tratado como a porta de entrada dos profissionais de RH, e é uma área que sofremos muito, fazemos muito trabalho operacional, entregamos pedidos (vagas) e esperamos ansiosamente a felicidade chegar. Aqui a felicidade é ser coordenadora, trabalhar com desenvolvimento ou ser business partner, people partner.

Não nos ensinam que recrutar é a alma de todas as empresas, que existem ferramentas (por falta de investimento das empresas, recrutadores em sua maioria trabalham com excel), não há um treinamento aprofundado e falando de recrutamento de tecnologia especificamente, os recrutadores são pessoas de áreas de humanas e negócios que fazem avaliações superficiais dos perfis técnicos. Muitos de nós fugimos de temas mais business ou técnicos, sempre brincando que "somos de humanas".

Em tecnologia somos considerados incapazes de aprender lógica de programação, estruturas de projetos e metodologias. Nós somos ensinadas apenas a ler palavras chaves e a fazer entrevistas de carreiras e comportamentais. Excluídos do mundo tech, só nos resta aprender sozinhos o que precisamos achar em um pedaço de papel, uma ficha de pedido de vaga e vai com deus.

Não quero soar dramática, mas recrutar é um papel tão mal construído em nossas carreiras, tão distante de estratégia e melhores práticas que apenas uma pequena parte de nós estuda a respeito ou mesmo nos unimos em comunidade para compartilhamento de conhecimento. Eu já tentei fazer um grupo no facebook e ninguém nunca aparece por lá. De alguma forma, nós achamos que devemos guardar os conhecimentos só pra nós, pra evitar a concorrência. E isso acaba apenas nos boicotando.

Nós somos recrutadores que não amam recrutar. Nós fazemos o necessário e poucos de nós são apaixonados por achar as pessoas e por fazer da nossa área algo incrível e crucial para investimentos da empresa.

Nos EUA vemos milhares de sites e comunidades que produzem excelentes materiais a respeito, mas nós nem sequer sabemos disso. Estudamos para sair da área e não para melhorá-la.

Durante toda a minha carreira de recrutamento senti dores como estas e me senti limitada nas empresas, eu sempre amei recrutar. Pedia ajuda para os desenvolvedores, tentava incluir mais pessoas nos processos e aprender mindsets de gestão de projetos para mudar a forma que eu trabalhava no meu dia a dia. Até que conheci a ThoughtWorks e como eu sempre brinco "voltei para a nave mãe". Aqui me sinto em casa, me sinto livre para amar o que eu faço. Nem tudo é perfeito aqui, obviamente, mas há uma abertura maior para tentativas e uma imensa valorização do nosso trabalho.

No meu primeiro dia de trabalho recebi um treinamento técnico sobre programação, conversei com muitos desenvolvedores e fui inserida muito rapidamente em um processo seletivo realmente colaborativo. Há muito espaço para crescer, se temos uma visão de algo que pode ser feito para melhorar podemos sugerir e testar. Se funcionar, o time todo (12 recrutadores no Brasil) implementa. Nossas práticas são sempre revisadas, fazemos retrospectivas mensais e pareamos muito para nos desenvolvermos mutualmente. O resultado do time é do time e não apenas individual e nós somos muito mais embaixadores dos valores da empresa do que apenas pessoas que entrevistam. Acompanhamos o processo do começo ao fim.

Hoje eu estou num papel de Sourcer Specialist, antes disso eu passei quatro meses no time global de sourcing (Centro de Excelência de Sourcing) para desenvolver meus skills técnicos de sourcing. Hoje, trabalho apenas procurando candidatos passivos e pareio com as recrutadoras que levam as pessoas até o final do processo. Meu papel também envolve entender do negócio, das nossas capabilities e das estratégias de curto, longo e médio tempo. E apoiar o time para que a gente seja mais assertivo em todo processo.

O recrutamento é a área mais importante de uma empresa, mas ela não é feita só de recrutadores, ela é feita por cada uma das pessoas que fazem parte da empresa, e esse não é apenas um discurso namaste, é uma prática que todas as empresas e recrutadoras podem aplicar. Nossa geração pode mudar a forma como pensamos recrutamento. Vamos?

Kelly Maia