#eujáfuivítimadeviolênciadoméstica

Fiquei muito mexida com saída do cara do BBB. Não consegui organizar pensamentos e só queria um abraço, daqueles que guardam a gente enquanto choramos.

Eu vivi a violência doméstica. Sofri abusos físicos, morais, emocionais, psicológicos e financeiros. Tive minha autoestima destruída. Aquela moça segura e altiva — que beirava a arrogância — foi transformada em um bichinho assustado. A vergonha, o medo e, sim, a culpa me fizeram não denunciar na época. A história só veio a público quando ele achou que deveria falar sobre, para se defender de algo que eu jamais tinha conseguido contar. Eu me afastei de todos, para que ninguém soubesse a minha dor.

Eu fui arrastada, puxada, jogada contra paredes, objetos foram arremessados contra meu rosto, eu tinha hematomas e dores, eu fui ameaçada, humilhada, insultada, menosprezada e, constantemente, ouvia que só tinha ele para me proteger (até que ele me convenceu disso). Ele me chamou de louca, para mim e para os outros, ele me prendeu. E prendeu tanto, que em um momento, eu já não precisava de chaves para viver em cárcere.

Eu já não podia usar short, porque não era roupa de mulher decente. Não podia fazer nada sozinha, porque não era capaz. Não sabia fazer nada direito. Eu era burra. Não era mais atraente. Não podia voltar a trabalhar ou a estudar. Eu não podia ter amigOs.

Depois de um tapa, decidi que saíria de casa. Levei 20 dias entre ter certeza que ia embora e conseguir ir embora.

Eu tentava, mas ele impedia. Ele dizia que tudo ia mudar. Que eu estava imaginando coisas. Que me amava e que ficaria tudo bem.
Assim como ouvia que ninguém acreditaria em mim.

Em um 22 de julho, depois de mais agressões, enfiei meia duzia de roupas em uma mochila e fui embora, com consentimento dele, vejam só. — Nessa data, todos os anos, eu comemoro um renascimento. O meu renascimento.

Eu pensei em voltar. Eu quis protegê-lo. Não queria que ninguém soubesse o que eu tinha vivido naqueles oito meses. Eu tinha vergonha e ainda tinha medo. ( Alerta Síndrome de Estocolmo).

Ouvi coisas que espero que nenhuma mulher agredida escute. Nem todo mundo foi legal. Nem todo mundo foi compreensivo. Ninguém gritou “não passarão”.

Superei e posso contar essa história por aí. Porque aconteceu comigo, a “diferentona”, livre, independente, segura e que enchia a boca para dizer: “apanhou e continuou com o cara porque gosta de apanhar”; “a ex dele era louca, insegura, infernizava ele” (Em tempo, conheci a ex dele e soube que também sofreu abusos, assim como a ex anterior… Todas nós fomos as “loucas”).

Aconteceu comigo e pode acontecer com qualquer uma de nós. Não vivemos relacionamentos abusivos porque queremos, não mesmo. Não culpem a vítima, não julguem.

Uma coisa precisa ficar clara. A violência física é o penúltimo degrau dos abusos. Eles começam com insultos, ameaças, com agressões psicologicas e emocionais. O cara só bate quando já destruiu aquela mulher por dentro. Não se deixem enganar, aquele amigo divertido, gente boa, que levanta bandeiras pode, sim, ser um agressor.

Não faço ideia de onde tirei força para conseguir retomar minha vida. As marcas ficaram, algumas ainda bem fortes e contar essa história — quantas vezes for necessário — é meu jeito de ajudar.

Dar a minha cara a tapa e recontar tudo isso é querer que o mundo mude, que a gente mude. É querer um mundo melhor para o meu filho, e tentar que ele não seja machista.

Ontem, depois da expulsão do cara, eu me senti abraçada. Mesmo que tenha discordado de várias partes do texto do apresentador, eu me senti abraçada.

Assim como me sinto abraçada por cada “não passarão” de vocês. Obrigada.

#mexeucomumamexeucomtodas #nãopassarão#euviviumrelacionamentoabusivo