do exílio interno

let the days go with the tide…


a ideia era sair do silêncio. mas ela precisava guardar as memórias daquela espera que se desfazia em suores. deu ao lencinho kleenex a missão de sorver cuidadosamente as marcas dessa agonia. ao invés do óbvio descarte, optou por manter as dobras originais e retornar cada lenço à embalagem plástica.

com uma fita adesiva lacrou os lenços. um plástico sobre o outro. atitude nada sustentável. quem se importa? é preciso dar longevidade à sua solidão, caso precise revisitá-la. é sinal de mau agouro não ter um cantinho pra brincar de estrangeiro, anônimo. sorry, no speak portuguese. my english very bad.

mas ela estava impelida à comunicação: como assim, não gosta de aniversário? nunca usou brinco? impossível! conta pra mim o que acontece. por que tão quieta? tá bom. então vou sentar aqui perto. não precisa falar, só respira. também sou assim. vou te fazer companhia.

não tinha alternativa. seu calar era um mutante que enlouquecia todos ao redor. e espalhava ao amigos dos amigos. todos sabiam dela. e ela, sabia de si? será que ainda estava viva?

a experiência ia começar: oi, tá tudo bem. é que eu falo pouco mesmo. prefiro fazer listas das bandas que gosto e das que um dia vou descobrir. também gosto de reinventar jeitos de listar o que preciso fazer. outro dia comprei uma lousa adesiva, disseram que podia tirar de um lugar e colocar em outro infinitamente. achei uma atitude verde, já que não economizo água. mas ai, na primeira vez que fui trocar de lugar, o adesivo tirou partes da pintura puída da parede (quanto um dialogo poderia evoluir caso eu decidisse falar apenas palavras que iniciassem com a letra p?).

apesar do adesivo da lousa ser resistente à mudanças, ele, por complacência ou misericórdia, deixou marcas gráficas de compromissos importantes: dar bom dia ao porteiro, tomar rivotril, acordar no horário, sorrir pra quem entra no elevador, agradecer a companhia pro almoço, aceitar solicitações de amizade, retornar ligações, organizar o guarda-roupa, oferecer a bolacha passatempo aos colegas de trabalho, juntar sua coleção de postais em uma única caixa, moderar o tom da voz, apontar os lápis.

ela estava fadada à vida. à viver junto.

mas ainda ela tinha a noite. lá, onde ninguém aparece pra fazer companhia, ela se reconcilia com o silêncio. abre só um pouquinho a embalagem de lenços. enquanto cheira seu passado de deliciosa passividade, se imagina fugindo do mundo. uma montanha na patagônia. um forno à lenha no sertão. um barco no rio são francisco. uma fissura no deserto negev.

quem está realmente vivo hoje? será que ativei o despertador? me recuso escovar os dentes. eu preferiria não.