Meu pé de Manjericão

Era manhã de Setembro. De repente, deu-me uma vontade louca de sair para o quintal, de falar, de ensinar o vizinho a cantar. Assim que saí, avistei uma nova plantinha. Um pé de manjericão. Senti o aroma suave e inconfundível da folhinha. Aqueles estavam sendo tempos ruins para mim, meu namorado tinha dado-me um pé na bunda. As tardes eram tristes e as noites eram frias. Sentia-me na mais completa solidão. Eu não tinha gato, nem filhos, nem cachorro, nem vibrador… então, resolvi que iria adotar aquele pé de manjericão. Se o Alexandre Frota já teve um melão como amigo, por que eu não posso ter um pé de manjericão? Eu cuidava dele com carinho. Criamos um vínculo emocional fortíssimo. Aos poucos, ele foi crescendo robusto e saudável. Todos os dias eu saía para aguá-lo e sentava-me no chão perto dele e contava meus dramas. Ele, compreensivo e calmo, ouvia tudo sem criticar-me:
Oh, manjericão, os loucos não possuem orelhas! Se amor é cego, nunca acerta o alvo. Ah! Se Deus me ouvisse e mandasse pra mim, aquele que eu amo e um dia partiu, deixando a tristeza junto de mim. Ah! Voltaria pra mim toda a felicidade, sairia do peito a dor da saudade, renascia uma vida a caminho do fim... Ah!, Aah!, Aaah!...Kabummmm!
Um barulho estrondoso fez-me cair de costas. Foi um trovão, e logo começou a chover. Corri para dentro de casa. Fui para cama, peguei minha barra de chocolate embaixo do travesseiro, tirei as formigas grudadas e fiquei comendo, e pensando no meu amor. Não sei ainda como tudo pôde terminar. Uma história de amor não acaba assim! Nos brigamos muito, mas sempre depois das brigas, nós nos amamos muito. Dia e noite a sós. O universo era pouco pra nós. O que aconteceu, Fernando Luís, pra você partir assim? Se eu te fiz algo errado, perdão! Volta pra mim, pensava eu. Comecei a chorar como uma desesperada…
Kabummmm!
E os trovões continuavam.
Ai, tomara que a energia não acabe, tenho pavor de escuro!Foi só eu falar e a luz se foi. Saí correndo. Sozinha ali não ficaria. Iria para perto do meu manjericão. Quando abro a porta, quase tenho um treco; todo de preto e com uma capa preta, um homem parado em minha frente.
Kabummmm!
Ahhh, socorro, manjericão, tem um assassino aqui!Gritei desesperada. De repente, a luz voltou e o cara tirou a capa. Pude ver que ele não era um assassino, era meu ex…
- Quem é esse tal manjericão?! Já me esqueceu e arrumou outro? Você não perdeu tempo, né, Fernanda Luisa?Esbravejava Luís Fernando, enquanto adentrava pela casa com aquelas malditas galochas cheias de lama.
- Calma, amor! Não é nada disso! Eu estava falando com meu pé de manjericão, aquele ali fora, no quintal.- Putz, Luisa Fernanda, essas tuas esquisitices!... você só está piorando, hein?! Pedindo socorro a uma planta. Francamente! O que é que há? O que é que tá se passando com essa cabeça?
Senti-me muito magoada com as palavras duras de Luís Fernando, mas fiz ouvidos ocos, ouvidos mudos, sei lá. Ele estava ali na minha frente e nada mais era tão importante.
- Mas o que você está fazendo aqui numa hora dessas, Luís Fernando?Perguntei, segurando-me para não pular em seu pescoço e enchê-lo de beijos
- Errrmm... bom...- Fala! O que houve? Aconteceu alguma coisa?- Não diga-me que... oh, não!... minha querida e amada ex quase futura sogra bateu as botas?- Que isso? Vira essa boca pra lá! Mamãe está bem viva e gozando de muita saúde aos 80, mais até do que nós juntos.-Mas, então?- Errmm... Eu voltei por que... eu... ahh, por que... Por que eu te amo!
Balbuciou Luíz Fernanado.
- O que? Eu não ouvi direito! Poderia, por obséquio, repetir?- Pow! Fala sério! Poww... Eu disse que voltei por que te amo.- Como? Você o quê?
Perguntei novamente, me fazendo de besta. (Puxa! Como nós precisamos ouvir isso!)
- EU TE AMO, PORR@!- Ai que lindo, Fernando Luís! Se lembre que eu há muito tempo te amo, te amo, te amo. Quero fazer você feliz! Vamos pegar o primeiro avião com destino a felicidade. A felicidade, pra mim é você.
Disse, atirando-me em seus braços.
- Agora diga que sem mim você não vive. E que sente a minha falta e depende desse amor.- Pow, qual é ?! Vou falar isso aí, não!
Abaixei o rosto, fiz beicinho. Falsidade pura!
- Pow, não aguento ver mulher chorando, para com isso, Luisa Fernanda! Perdoa-me por ter dado um pé na sua bunda, Fernanda Luisa? Depois de tanto tempo, percebi que sem você não sou ninguém. Fechava meus olhos para não ver passar o tempo, sentia falta de você. Eu não sei o que me deu. Não sei como pude deixar-te. Não vou saber me acostumar, sem tuas mãos para me apalpar, sem teu olhar pra me entender, seu teu carinho, amor, sem você.- Ah, não vamos pensar no passado doloroso, o importante é que estamos juntos outra vez.- Isso mesmo, amor! Agora eu vou tomar um banho, tirar essas roupas molhadas... enquanto isso, você prepara o jantar, põe o vinho no gelo, o batom que eu gosto pra eu te beijar, use aquele perfume pra me enfeitiçar, uma flor nos cabelos... hoje eu quero te amar!"
Bem, fui lá fora, peguei uma flor do manjericão e coloquei nos cabelos. Tivemos uma linda noite. Meus dias voltaram a ser floridos, meu céu voltou a ser azul. Logo de manhã, fui correndo falar com meu pé de manjericão, dar-lhe bom dia e agradecer-lhe por tudo, afinal, ele tinha dado-me muita força. Foi ele quem trouxe o Luís Fernando de volta, usando a força da natureza e invocando o espíritos da floresta. Tudo fluía perfeitamente. O universo inteiro conspirava a meu favor. Mas Fernando Luís não fazia questão de ser nem um pouco simpático com meu manjericão, ao contrário, tinha ciúmes e raiva. Eu não importava-me com sua implicância, não desfaria-me de um amigo por causa de um homem, mesmo sendo o homem da minha vida. Não mesmo! Uma dia, uma vizinha intrometida veio dizer-me que as folhas do manjericão iam muito bem na culinária e disse para eu usá-las, pois assim meu namorado acostumaria com a presença do manjericão em nossas vidas, assim eu fiz. Colocava no arroz, no feijão, nos legumes, no macarrão, na torta, na mousse, no suco, nas saladas… virei uma verdadeira ‘manjericãomaníaca’. Mas, um certo dia, Fernando Luís, então cheio de ciúmes, irado e de saco cheio de comer tudo com gosto de manjericão, transformou-se em um monstro; pegou um facão e decepou meu manjericão. Fiquei indignada, chocada, desesperada.
Você matou o 'Mam'! Seu brutamontes, troglodita de uma figa! Eu te odeio!Saí correndo e chorando, e me tranquei no quarto. Foi o pior dia da minha vida, pior do que quando aquele cachorro sarnento do Fernando Luís deixou-me. O tempo passou. Fui, aos poucos, conformando-me com a falta do meu pé de manjericão. Na tentativa de consolar-me e reparar seu erro, Luís Fernando tratava-me como uma deusa. Ele estava é com medo de uma possível greve de sexo. Hoje de manhã, um mês depois de tudo, me deu uma vontade louca de sair para o quintal, de falar, de ensinar o vizinho a cantar. Quando cheguei no quintal, avistei uma nova plantinha que havia nascido. Era um pé de boldo, descobri depois de por um pedacinho da folhinha peluda na boca:
Argh! Eca! Tem gosto horrível e amargo!Um pensamento macabro veio à minha mente: Agora vingo-me do Luís Fernando ou Fernando Luís. Sei lá!
Referências:
- Se Deus Me Ouvisse — Chitãozinho e Xororó
- Uma História de Amor — Sampa Crew
- Volta Pra Mim — Roupa Nova
- Pense Em Mim — Leandro e Leonardo
- Amor Perfeito — Claudia Leitte
- O Que é Que Há? — Fábio Junior
- Paz Na Cama — Leandro e Leonardo
- Hoje Eu Quero Te Amar — Zezé Di Camargo e Luciano
- Romeu e Julieta
- Manhãs de Setembro — Vanusa
