A dança.

E se fosse possível seguir outra trilha?

De acordo com Rolando Toro ao longo de seu desenvolvimento a humanidade optou pela trilha da linguagem-pensamento até se tornar a civilização que é hoje. Toro demonstra que esse é um entre outros caminhos possíveis. A biodança apresenta o percurso da emoção-movimento que fora atrofiado por nossa espécie ao longo dos milênios. Assim, a biodança promove uma transculturação, a partir da qual o dançarino (cliente, participante) opta por certos valores, sentimentos, emoções e vivências em detrimento de outras. Ou as vezes nem opta, apenas se abre para o desconhecido em detrimento do carcomido cotidiano anti-vida.

A trilha escolhida por nossa espécie, que hipervaloriza linguagem, pensamento, racionalidade pragmática, levou a uma cisão entre natureza e cultura com o predomínio da razão sobre o instinto. O que gerou a “patologia do eu” implicando no não olhar, tocar ou escutar o outro. Nessa perspectiva só o eu prevalece, se o outro é subalterno o “nós” é desprezado. Indo de encontro a essa perspectiva a biodança vincula-se à trilha da emoção-movimento buscando: intimidade, união, beleza, desejo de renascer, nostalgia do amor, transgressão de valores, totalidade biológica com a espécie e totalidade cósmica com o universo.

Para tanto a vivência é o método básico e a dança uma estratégia privilegiada. Dança entendida como movimento existencialmente experimentado. Mais do que um deslocar-se no tempo e espaço, a dança é entendida no movimento biocêntrico como um fluir no mundo, em ambientes sentidos e em tempos vividos. Ambos impregnados de sensações, significados ideo-afetivos, desejos, memórias, sentimentos. Mais do que o espaço a dança da vida ocorre em ambientes individualmente significativos e em egregoras coletivamente representativas. Mais do que o tempo cronológico a dança da vida se baseia em ponteiros ancestrais, cósmicos.

A primeira dança ocorre no útero. Ali há intimidade, união, vida. A biodança almeja o movimento integrativo que é ancestral, pois já estava na dança uterina. A dança terapêutica ativa as potencialidades afetivas que surgiram com o próprio ser, antes mesmo de sua existência e que foram atrofiadas pelo processo civilizatório. Rolando Toro se inspirou em movimentos naturais, para ele era significativo eu entre os primitivos as danças eram modalidades comunicativas, “manifestações da experiência da vida por meio de movimento”.