Clube da luta: o anti-espetáculo como espetáculo

A capa diz muito
O que é o terrorista senão aquele dogmático que quer que tudo e todos se curvem ao seu desejo, que identificam como verdade suprema?

Quando assisti Clube da luta na adolescência fiquei impactado por quatro motivos: a) uma critica mordaz ao consumismo e ao culto à imagem, b) uma tese de que havia caminhos diferentes (estilos de vida alternativos), c) aquela última cena com a música Where Is My Mind (continua sendo uma de minhas preferidas), d) além de alguns pontos fortes do roteiro, é claro.

Dez anos depois encontrei mais dois motivos. O filme já não está entre meus preferidos (posição que havia ficado desde aquela primeira mirada) mas considero até mais relevante hoje. Clube da luta permite pensar também que o fascismo jamais será uma forma relevante de combater o fascismo. O protagonista para lutar contra a ditadura da imagem, constrói a sua imagem como a de um mártir abnegado, na luta contra a ditadura do consumo, Tyler Durden se torna um terrorista do espetáculo. O que é o terrorista senão aquele dogmático que quer que tudo e todos se curvem ao seu desejo que identificam como verdade suprema?

quando apontamos o dedo para alguém apontamos quatro para nós mesmos

Outro ponto relevante que não havia pensado na primeira vez que assisti, é de que o maior inimigo não é o sistema, mas, no máximo esse é tão beligerante quanto nós próprios em nossa infinita capacidade de nos machucarmos. Nós somos nossos maiores adversários, em um jogo interno no qual quando apontamos o dedo para alguém, apontamos para nós próprios.

Nesse sentido não poderia ter ator melhor do que Brad Pitt para interpretar Tyler Durden. Pitt havia nessa época sido escolhido por algumas revistas de celebridade e fofoca como “o homem mais bonito do mundo”, e ao longo de todo o filme essa aparente contradição eclode, como quando no ônibus Tyler com sua barriga sarada de tartaruga critica um modelo de vitrine, ou quando o sempre vaidoso Tyler (que frequentemente está se ajeitando no espelho) diz que Norton “está parecendo um louco” com trajes de dormir. Tyler é a critica do espetáculo sem o qual ele não existe, não sabe viver. Mesmo podendo ter se acomodado em sua fama e feito filmes fáceis, Pitt trilhou um percurso insólito e virtuoso (até quando faz um blockbuster escolhe a dedo, como em Tróia).

Sem coragem e responsabilidade para ser ele mesmo, Norton cria Durden para ser o que ele próprio sente ódio por não ser. Daí porque Norton se mostra um covarde ao longo de quase todo o filme e Durden um irresponsável. Com o medo Norton nega a si mesmo, com a irresponsabilidade Durden nega o outro. Na negação do “eu” e do “tu”, o “nós” fica inviabilizado, está pronto o combustível para o terrorismo. O que é o terrorismo se não uma atitude infantil de proibir que todos brinquem porque não se sabe ou não se pode brincar?

Contra a ditadura da sexualização, das imagens idealizadas e da subjetividade como peça de boutique, Foucault propôs certa vez o silêncio como ato subversivo. Para isso não seria necessário que o revolucionário quebrasse a TV, bastaria que ele não a ligasse. O que incomoda Norton não é o ruído da TV, mas o fato de ele não está nela, por isso Durden é criado, para que Norton suba ao palco. Por tudo isso David Fincher talvez tenha feito com Clube da Luta sua obra prima, um filme antológico, que marcou gerações, incluindo a minha.

“Nós estamos destinados a ser os caçadores e nós estamos em uma sociedade de compras. Não há nada mais para matar, não há nada para lutar, nada para vencer, nada para explorar. Nesse emasculação social deste homem comum [o narrador] é criado .”
David Fincher

https://www.youtube.com/watch?v=8HdoNpOf1gU