Filosofia do prazer

Kelton Medeiros
Nov 2 · 3 min read

Epicuro viveu há 2.500 anos, e seu nome ainda é a principal referência quando se fala em hedonismo (o significado desta palavra é aproximadamente o de doutrina ou sistema do prazer). Epicuro propôs uma filosofia que funcionaria como uma medicina para a mente e o corpo. E o princípio fundamental desta filosofia era viver de acordo com hábitos prazerosos. A vida feliz seria a vida prazerosa. Para tanto devemos utilizar a razão para realizar dois exercícios complementares, primeiro descobrir o que nos dá prazer, segundo, selecionar dentre estes prazeres aqueles que são e os que não são adequados.

Epicuro era considerado tão sábio entre seus conterrâneos, que era comum as pessoas terem estatuetas do filósofo em suas casas. Pois acreditavam que só por contemplar a imagem de Epicuro já poderiam acalmar a mente (não por magia, mas pela força do exemplo) e encontrar inspiração para uma vida sábia. De fato, o hedonismo de Epicuro é como um fármaco para medos, angústias, insatisfações. Epicuro dizia que as três patologias psíquicas mais freqüentes de sua época eram o medo dos deuses, o medo da morte e o medo da dor.

A tese fundamental do hedonismo é viver de acordo com o que dá prazer, contudo, submetendo tal prazer à racionalidade ética. Efetuando um cálculo do prazer a partir do qual cada pessoa deve ponderar se o prazer que viverá hoje trará no curto, médio e longo prazo mais bem-estar ou mais sofrimento. Assim, prazeres efêmeros são bons no curto prazo, mas podem não compensar no longo prazo. Ao contrário, os prazeres estáveis, que se caracterizam essencialmente pela ausência de dor podem ser mais sustentáveis no longo prazo.

De acordo com a matemática do prazer pode ser preferível até uma dor a um prazer. Por exemplo, posso sentir dores ocasionais ao me exercitar, mas com isso me prevenir de dores maiores advindas de doenças crônicas causas por sedentarismo. É só por meio de uma reflexão minuciosa que se pode chegar à conclusão de quais prazeres são adequados.

Um parâmetro que auxilia no cálculo do prazer é agir de acordo com a natureza, ou seja, buscando aquilo que é biologicamente necessário e sem o qual sofreremos. Epicuro divide os prazeres em três grupos. Sendo que os prazeres do primeiro grupo devemos buscar sempre. Os prazeres do segundo grupo devemos apreciar com moderação ou mesmo abster-se. Os prazeres do terceiro grupo devemos evitar. O primeiro grupo é constituído por prazeres naturais e essenciais (saciar fome, sede, sono etc.). O segundo grupo por prazeres naturais, mas não essenciais (comida farta, sexo, bebida refinada). E o terceiro grupo por prazeres não naturais e não essenciais (glória, sucesso, riqueza, beleza).

Tanto o Hedonismo como as outras filosofias do período helenístico buscavam a tranquilidade, serenidade, imperturbabilidade (ataraxia). Para tanto Epicuro defendia que era auspicioso acostumar-se com pouco. Pois quem está acostumado com pão e água saberá se beneficiar do pouco, mas também dos banquetes. Já quem está acostumado às mesas fartas sofrerá com uma ceia restrita. Assim o hedonismo propõe que sejamos o mais independente possível dos desejos, mas que simultaneamente saibamos identificar e satisfazer os prazeres sem os quais sentiremos dor e sofrimento. Na carta a Meneceu (um dos textos mais antológicos do hedonismo), podemos ler o seguinte:

“Portanto, quando dizemos que o prazer é o bem completo e perfeito, não nos referimos aos prazeres dos dissolutos ou dos crápulas (…) mas sim a não ter dor no corpo nem inquietação na alma. Posto que não fazem uma vida feliz nem os banquetes nem as festas contínuas (…) mas o cálculo judicioso que procure as causas de cada ato de escolha ou de recusa, que afaste as falsas opiniões das quais nascem as maiores inquietações de espírito”.

Kelton Medeiros
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