Classes aristotélicas

Classes aristotélicas

Uma das muitas anedotas sobre Bruce Lee é a de que ele chegava cedo para assistir suas aulas de artes marciais, e ficava na entrada esperando os colegas, quando esses chegavam ele dizia: “hoje não haverá aula”, desta forma Bruce tinha a oportunidade de ter aulas particulares, apenas ele e seu mestre, o que obviamente proporcionava um atendimento personalizado que maximizava seus rendimentos (se a história é lenda não sei, o fato é que Bruce realmente tinha atendimento personalizado, pois, por ser mestiço os outros colegas não queriam treinar com ele, na tradição chinesa os alunos mais novos são ensinados pelos mais velhos, não necessariamente pelo mestre, por conta do preconceito Bruce acabou se beneficiando e recebendo atenção personalizada do lendário Yip Man), na época massificada na qual vivemos pensar em personalização parece um luxo ou uma utopia, muitas vezes professores se deparam com salas com mais de cinquenta estudantes. Bruce foi diferenciado, sua singularidade se fez ouvir da multidão.

Assim tem sido a Educação formal desde a modernidade, contudo, quando pensamos em modelos antigos de formação nos deparamos com outras realidades. Conta-se que Alexandre, o grande, teria sido aluno de Aristóteles. Teria sido, inclusive, o imperador cosmopolita que teria financiado as pesquisas de Aristóteles no campo das ciências naturais (o que ele chamava de Física), um dos objetos de estudo do filósofo de Estagira. Por outro lado, teria sido o discípulo mais ilustre de Platão uma das influências de Alexandre para desbravar o mundo (des) conhecido. Esse tipo de parceria pode encontrar terreno fértil em classes de cinco estudantes, ou menos (quatro pessoa já pode ser considerado formação de quadrilha), simultaneamente, parcerias como essas podem se deparar com aridez infertilizante em classes de trinta ou cinquenta estudantes.

A quantidade pode influir na qualidade. O encontro ocorre em determinado instante, tempo e espaço estão imbricados. Um encontro a dois certamente afeta a subjetividade de modo distinto de um encontro a vinte. Ensinei muitas turmas noturnas que possuíam alto nível de evasão, eram o terror do sistema de ensino. Do ponto de vista dos que administram o sistema (perspectiva frequentemente internalizada também por professores), um dos maiores fracassos que pode ocorrer é a evasão escolar, sendo as classes noturnas muitas vezes o emblema desse fracasso. No entanto, minha perspectiva era outra, em um período de “quase pleno emprego”, como o que vivemos entre 2010 e 2012, anos em que ensinei para turmas noturnas do ensino médio eu entendia aquela evasão como “evasão criativa” ou “evasão ativa”. Eu conhecia muitos daqueles estudantes e sabia que eles abandonaram a escola por estarem trabalhando. Na época nosso salário era de aproximados 3.000 reais, lembro de um estudante do primeiro ano do ensino médio que “evadiu” para trabalhar e estava ganhando 12.000 reais. O fato é que essa evasão torturava mentalmente os gestores, mas, como facilitador de aprendizado eu adorava estar com turmas de 10, 9, 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1 estudantes. Não digo que o ideal seja X ou Y, mas sim que distintos formatos são possíveis, que a EAD é uma interface de potenciais inexplorados e que o que não funciona gerará os mesmos resultados se nada for mudado mas poderá produzir novos possíveis se o diferente for experimentado.

Porém, quantidade não determina qualidade. No curso de Psicologia tive a oportunidade de cursar meia dúzia de disciplinas (geralmente por serem optativas) que tinham menos de dez alunos, tive o privilégio de ter aula por várias vezes somente eu e uma professora (aulas que valeram mais do que dez de outras). Mas, por incrível que pareça, essa situação desagradava alguns estudantes ou professores, que se desestimulavam por estarem em turmas pequenas. Por isso a importância de não se engessar o (no) método. As estratégias podem ser permanentemente adaptadas ao contexto, a partir do momento, com base nos encontros.