Os laços sociais do ensino

Iniciei ensinando para mim mesmo (faça isso, eu posso, já fiz isso, já fiz assim e deu certo, e se eu fizer desse jeito…), para amigos, amantes, familiares, colegas, conhecidos, até para estudantes pagantes (esses já foram mais de três mil), hoje ensino até para o tempo (ou seja, em blogs, onde sabe-se lá se algum dia alguém vai ler). Ensinar é um hábito, e isso tem um lado ótimo, quem ensina aprende, mas tem um lado perigoso, pode viciar, como vício o ensino cristaliza um papel social, o de professor. Adoro esse papel, mas cada vez mais tenho atentado para circunscreve-lo a um ambiente específico, a escola. Fora dela quero exercer outros papeis: estudante, terapeuta, buscador, primo, tio, vizinho. Mas, fazer essa distinção não é tão fácil quanto parece.

Se saber distinguir os papeis sociais, não hipertrofiando o papel de professor é um desafio atemporal da profissão, na atualidade surge um novo desafio, o de exercer um papel que está em constante mudança e que não goza mais de legitimidade como em outrora. Quando iniciei (uma década atrás), uma questão em destaque era a “perda de autoridade” pela qual o papel de professor passava, hoje (aquele debate se acirrou, e a acrescentou-se outro: o local de se exercer esse papel, presencial ou online? Confesso que nesse segundo debate me sinto bastante a vontade, pois além de gostar das novas tecnologias vislumbrei desde o início a Educação A Distância — EAD como uma possibilidade progressista.

Contudo, tanto a perda de autoridade, quanto a desorientação espacial advinda do incremento do ensino online, quanto várias outras questões como desvalorização da categoria, formação deficitária, falta ou precariedade de programas de formação contínua, falta de gestão profissional, descontinuidade de políticas públicas, e a falta de objetivos, metas claras e acima de tudo de um propósito bem definido fazem com que o papel de professor esteja posto em xeque. O que causa desorientação, circunstância propícia à depressão de acordo com Ehrenberg: “Se a neurose é um drama da culpa, a depressão é uma tragédia da insuficiência. Ela é a sombra familiar do homem sem guia, cansado da empreitada de ter que se tornar somente ele mesmo e tentado a manter-se, até à compulsão, por produtos e comportamentos”. (Ehrenberg, 1998 apud Aguiar, 2007). Tenho percebido, de fato, a escola como um contexto de adoecimento, certa vez conversava com alguns professores e gestores, quando um diretor comentou que utilizava antidepressivos, sua fala motivou outros a fazerem o mesmo, um a um a maioria de uma dúzia de profissionais que estavam na sala passaram a falar sobre os antidepressivos que usavam, fiquei tão surpreso quanto deslocado com a naturalização do fármaco.

Assim, vivemos um momento de tomada de decisão radical. Ou pensamos coletivamente saídas para esses impasses ou corremos o risco de vê-los se agravando progressivamente e cada vez de forma mais rápida. Penso que uma das saídas coletivas no plano da Educação propriamente é desvincular a avaliação escolar (tanto a avaliação do aprendizado em sentido amplo como as diversas formas de avaliação de rendimento) da promoção escolar, isso poderia dar ao professor (ao contrário do que pode parecer em um primeiro momento) a oportunidade de laçar seu papel social ao desejo dos estudantes e ao seu próprio desejo, pois sua função deixaria de ser vista como um pendulicário dos exames. Cingapura, que está no topo das avaliações internacionais optou esse ano por esse caminho.

Concomitantemente cabe a cada professor laçar individualmente suas práticas profissionais aos seus objetivos e metas pessoais, pesar como os desafios escolares podem se ligar à sua própria história de vida ou ao seu propósito. Pensar como sua missão pode fazer parte de uma construção maior que seja parte de um capítulo da própria história de nossa espécie. Felizmente há muito por ser explorado.