Por que (não) sair da igreja católica.

Igreja de ouro

Estava almoçando com três colegas, militantes católicos, pessoas de fé e ação que externavam naquele momento suas insatisfações com os rumos da igreja. Então lhes fiz uma pergunta: por que vocês não fundam sua própria igreja? Ambos riram bastante, e precisei repetir mais algumas vezes a pergunta até que percebessem que se tratava de um convite/desafio sério. No restante do dia tive mais algumas horas conversando sobre o assunto com um amigo representante da teologia da libertação, o final daquela conversa foi banhado por uma lua cheia de maio (wesak). Seguem duas respostas que surgiram a partir daquela conversa.

I — Por que sair da igreja e fundar uma nova.

A igreja católica apostólica romana (existem e existiram outras igrejas católicas) é a primeira instituição criminosa internacional do mundo. Ao longo de mais de mil anos apoiou oficialmente, assessorou e legitimou teologicamente genocídios (“catequese” jesuíta por exemplo), censura, perseguições, assassinatos individuais (inquisição e suas fogueiras por exemplo), entre diversos outros crimes contra a humanidade como a escravidão.

Ocorre que não é apenas o passado que a condena. Mesmo na atualidade (século XXI) onde o politicamente correto é a regra e até a santa igreja se curva a ele ainda há controvérsias grandes. Como por exemplo a conivência do alto clero com os casos de pedofilia que se repetem e se repetem mundo a fora.

Até agora só falamos da seara criminal (legal), se fossemos entrar no campo estritamente ético então, as controvérsias do vaticano se sucedem: proíbem utilização de preservativos, mulheres não podem consagrar (para ceder um pouco ao politicamente correto as deixaram celebrar), e por aí vai. Os crimes também são antiéticos, mas nem tudo que vai contra a ética é criminoso, essa distinção é importante e ajuda a entender porque a igreja que fora a primeira instituição criminosa internacional não comete ou apoia mais tantos crimes (para se alinhar à cultura do politicamente correto), mas continua no mundo das controvérsias éticas.

Tendo feito essa brevíssima ficha corrida da santa igreja surge a pergunta: porque apoiar uma instituição com tal passado? Para dar um exemplo pensemos no campo político, você que apoia o PT, votaria no PSDB tendo em vista seu passado? Você que apoia o PSDB votaria no PT tendo em vista seu passado? Você compraria um carro que o dono disse “ele deu muito problema nos últimos dois anos, mas agora está bem”? Você faria uma cirurgia com um cirurgião que cometeu vinte erros fatais no último ano? As analogias podem se suceder ao infinito, e a pergunta ganha forma, porque seguir uma igreja com um passado e um presente tão nefastos?

Os católicos poderiam se inspirar em seus irmãos protestantes que há vários séculos propuseram um modelo no qual cada comunidade eclesiástica pode ter mais autonomia política, estética, teológica, litúrgica. Como alguém pode abrir a boca para falar em igualdade de gêneros se faz parte de uma instituição na qual a mulher não pode consagrar e o homem pode? Por que aceitar isso? Quão belo seria termos várias igrejas católicas surgindo? Igreja católica apostólica argentina, Igreja católica apostólica cearense, igreja católica apostólica da Messejana etc.

II — Porque ficar na igreja e não fundar uma nova.

Novos ares

Em um mundo fragmentado como o nosso a igreja católica apostólica romana é um porto seguro para as tradições, Viktor Frankl já advertira no começo do século XX como a ausência de instintos e a derrocada das sociedades tradicionais estava associada à falta de sentido para se viver o que levava ao que ele chamou de neuroses noogênicas, e que poderíamos afirmar que englobam boas parte das atuais depressões (Frankl era psiquiatra e defendia como algumas depressões eram de origem biológica). Nesse sentido essa igreja cumpre um papel importante de preservação de valores, crenças, tradições seculares que possam servir de guia.

A fragmentação também pode ser bastante perigosa, uma igreja em cada bairro poderia estimular uma pluralidade de vozes que refletissem não teorias, conceitos, hermenêuticas, teologias e filosofias mas os interesses e as opiniões dos sacerdotes de cada quarteirão. A formação desses sacerdotes também poderia ser bem mais deficitária, ainda hoje a igreja romana representa a possibilidade de formação rigorosa para jovens ao redor do mundo.

A igreja do povo

A igreja romana também possui um importante papel estético e social em nossa cultura, milhões de pessoas possuem na liturgia romana, nos cantos e vestimentas sacerdotais, nas artes sacras um contato primeiro (e as vezes único) com a música, o estilismo, a alta costura, o artesanato a escultura, a pintura, os corais. Além de a igreja também representar um importante fator de coesão social. fazendo parte mesmo do imaginário espacial de muitos, desenhe uma cidade e muitos colocariam uma igreja no centro. A igreja (e o que se faz nela apesar dela) é um reservatório de costumes, quantos deram seu primeiro beijo nos arredores de uma igreja romana?

Finalmente é importante ficar na igreja porque movimentos populares resistem e (re)surgem no seu interior, aproveitando a adesão popular que a igreja possui para mobilizar mentes e corações. Meu amigo comentara como certa vez ele impulsionara a criticidade de ao menos trinta jovens quando fora convidado a celebrar em uma pequena comunidade. Assim, as pessoas que querem um mundo diferente a partir dos princípios cristãos perderiam, se saíssem da igreja, um espaço secular de experiências populares. Principalmente agora com Papa Francisco, é importante que os sonháticos da igreja romana permaneçam na mesma para que possam transformá-la por dentro e assim transformar o mundo. Nas palavras de meu amigo: “não fazendo o diferente, mas fazendo aquilo que cristo ensinou”.

III — Minha opinião.

Antes dessa conversa eu achava um pouco sem sentido pessoas que “queriam mudar o mundo”, tentarem fazê-lo de dentro de uma instituição tradicional. Após essa conversa mudei de opinião. Penso que ser progressista em uma instituição conservadora não é contraditório, mas é importante que se saiba onde está pisando. É o que Marcuse chamava de “a marcha lenta”, ou seja, um movimento de dentro para fora, no qual a partir de uma instituição reacionária o revolucionário pode progressivamente agir. O erro seria não reconhecer a instituição como conservadora ou reacionária, sim, ela é, mas dentro dela pode-se agir progressivamente.

Mas que fique claro, embora o Próprio Papa Francisco aparente ter uma postura ética, a igreja continua conivente com crimes, portanto, ainda que em menor grau tentar ser ético dentro de uma instituição desse tipo é como tentar ser ético dentro de um partido corrupto, é possível, mas não é fácil. O encontro entre Francisco e o cardeal que acobertou centenas de crimes em Boston, é emblemático. Por mais que Francisco não pareça conivente com as práticas ele também não exigiu que o arcebispo se retratasse ou fez qualquer tipo de retaliação, ao contrário, o famigerado arcebispo que fora transferido de Boston para Roma poucos dias antes do julgamento (o que foi entendido por alguns como manobra para protegê-lo, continua a ter boa vida no Vaticano mesmo no atual pontificado, o que pode ser entendido como um indicativo que para a igreja católica o crime ainda compensa.

Paralelamente aqueles que de forma alguma se sentem representados pela igreja romana podem fundar suas próprias igrejas ou se engajar nas que já existem. Essas atitudes não são excludentes, mas complementares, as pessoas que estão nessas diversas igrejas podem colaborar umas com as outras, usando as instituições para servir aos seus propósitos e não o contrário.