Seja você mesmo mas não seja sempre o mesmo

Há em nossa cultura um discurso de que devemos ser extraordinários ou estaremos desperdiçando nossas vidas, de que o caminho para isso é o pensamento positivo e que todos podem realizar o que desejarem, desde que trabalhem duro para isso e não desistam. Esses discursos são paradoxais e podem ser tóxicos, invés deles podemos aprender a sermos mais felizes com a vida que temos e aptos a aproveitarmos ainda mais. No livro “the subtle art of giving a fuck” (ainda sem tradução), Mark Manson questiona esses mantras contemporâneos. Esse texto parte desse livro.

Tentar ser a melhor versão de você mesmo significa que sua versão atual não é tão boa, e que se algum dia você encontrar “a” melhor versão, como é a melhor, não poderá ir além desse ponto. O que denota uma mentalidade fixa. Invés disso podemos escolher a felicidade todos os dias Invés de ficar condicionando a felicidade a algo que obterá no futuro.

Claro que podemos, e quiça seja o ideal, voluntariamente nos transformarmos em novas versões. Mas, sempre partimos da versão atual, e essa deve ser reverenciada. Apreciando a versão de nós mesmos que somos hoje. O que você vive hoje não poderá ser vivido novamente, e qualquer outra vivência que teve no passado ou que possa vir a ter não a tem nesse exato momento, logo, literalmente, o melhor que você pode fazer é o que pode fazer agora.

A busca por ser extraordinário é paradoxal. Por definição o que está além do ordinário é raro, logo, se todos fossem “extraordinários”, passariam automaticamente a serem ordinários. E se apenas alguns são extraordinários esses apenas reforçam o modelo elitista de nossa civilização. No lugar da utopia “todos podem ser extraordinários”, uma ótima utopia seria: “todos podem viver uma experiência ou uma vida extraordinária”, mas, nesse momento, o extraordinário viraria ordinário. O que é ótimo, pois assim cada um poderia apreciar as facetas simples, belas e abundantes da vida.

Manson cita os casos de Dave Mustaine e Pete Best para exemplificar a relação entre sentir-se bem e estar em paz com isso. Mustaine foi expulso do Metálica e fundou sua própria banda, vendeu milhões de discos e é considerado muito bem sucedido mas admitiu se sentir fracassado, pois o Metálica vendeu o dobro. Best foi expulso dos Beatles, não teve sucesso mas disse que isso foi a melhor coisa que lhe aconteceu, pois, por conta da expulsão acabou conhecendo sua esposa e construindo sua família.

Deste modo, nosso bem estar está mais relacionado aos nossos valores e como nos vemos em relação a quem somos hoje. Para Manson, valores ruins seriam aqueles que: sejam supersticiosos, socialmente destrutivos e não imediatos ou não controláveis. Já os valores bons seriam os que: sejam realistas, socialmente construtivos e imediatos ou controláveis. Bons valores incluem simpatia, criatividade, honestidade, amizade etc.

A frase desse título é do rap brasileiro Gabriel o Pensador, creio que ela ilustra bem o que disse aqui, e suspeito que Manson também adoraria. Ficar obcecado pela melhor versão pode trazer muito sofrimento, mas aproveitar as infinitas versões de nós próprios que podemos ser é o caminho da felicidade.