Três perguntas existenciais.

Rolando Toro ao criar a Biodanza criou não apenas uma terapia integrativa, mas também um movimento humanista (movimento cósmico, para ser mais fiel ao princípio biocêntrico). Esse movimento além de oferecer um modelo terapêutico com princípios e técnicas também foi profícuo em reflexões para a vida. Uma dessas reflexões é sobre as três perguntas existenciais: Onde quero viver? Com quem quero estar? O que quero fazer?

Sem dúvida há cenários que são bem menos favoráveis que outros. E para algumas pessoas as três perguntas existenciais desse texto cedem lugar a perguntas de sobrevivência, como: “o que vou comer agora?”, “onde vou dormir hoje?”. Como Maslow bem definiu em sua teoria da motivação, questões existenciais se tornam mais importantes quando as questões de sobrevivência já foram respondidas.

Em muitas famílias as condições precárias impelem as pessoas a agarrarem a oportunidade de ficar com o primeiro emprego que aparece. Em alguns países, como atualmente a Venezuela, um emprego estável, por mais que mal remunerado vira artigo de luxo. Mesmo no Brasil, que faz vinte anos figura entre as quinze nações mais ricas e atualmente ocupa a sexta posição desse ranking existem mais de dez milhões de desempregados. Como diante desses cenários pode-se escolher o que se que fazer?

Não reconhecer as situações de vulnerabilidade social é de alguma forma reforça-las. Mas, mesmo em situações difíceis é possível, de acordo com Viktor Frankl, ter “valores de atitude”. Ou seja, quando não há mais nem uma atitude que possa ser tomada, podemos decidir como nos posicionaremos diante dos infortúnios.

http://tribunadoceara.uol.com.br/noticias/cotidiano-2/morador-de-rua-constroi-casa-em-arvore-no-centro-de-fortaleza-para-se-proteger-da-chuva/

Além disso, mesmo em situações difíceis podem surgir soluções criativas. Lembro agora de duas histórias. Uma de um amigo que morou alguns anos na rua, ele disse que era perigoso e via vários moradores colegas que também estavam em situação de rua serem agredidos de alguma forma, então ele encontrou dois locais seguros para dormir, um era em cima dos muros (alguns que eram mais grossos) outro era enfiado em buracos que ele cavava na areia da praia. Outra situação que recordo foi a de um rapaz que conheci quando fui a primeira vez a Salvador. Ele estava lá sem dinheiro, então alugou um carro no cartão de crédito e passou a fazer traslados do aeroporto aos trechos turísticos, com o que faturava manteve sua estadia. Seja como for, segue três perguntas fundamentais.

Onde quero Viver?

Essa primeira pergunta pode não fazer muito sentido à primeira vista. Alguém pode se interrogar se é possível escolher realmente onde se quer viver. Em uma sociedade como a nossa onde, apesar de muitas terras, ainda há assassinatos por disputa de terreno no campo. E nas “cidades grandes” a especulação imobiliária torna os imóveis cada vez mais caros, dá realmente para escolher?

Um exemplo pessoal pode ilustrar bem essa questão. Quando fui cursar Psicologia eu já trabalhava e tinha um cotidiano bem atarefado mas queria vivenciar intensamente a faculdade. Então meu desejo era morar perto da universidade, de tal modo que eu pudesse ir caminhando para as aulas, pudesse ir para casa e voltar rapidamente. Então fui procurar um local próximo, me deparei com duas realidades. Haviam casas caras para alugar (o aluguel era mais do que eu ganhava) ou algumas casebres de um cômodo, sem nenhum conforto. Desistir?

Continuei procurando, e encontrei por meio do aplicativo “Easy quarto” uma casa um pouco menos perto do que eu imaginava, só que bem maior do que eu esperava. O aluguel estava barato, e pagando a vista ainda consegui um abatimento que deixou o aluguel (com gás, água, energia, internet, TV a cabo) por 420 reais. Ainda fiz uma grande amizade com o proprietário da casa. O aluguel era de um quarto da casa, na qual moravam mais três pessoas. Ocorre que uma dessas pessoas trabalhava em outro estado e a outra passava o dia fora, na prática era eu e o proprietário em uma casa (super bagunçada mas confortável) de 400 metros quadrados.

Escolhi onde queria morar mesmo em uma região na qual não é fácil encontrar locais para alugar (Fortaleza é a quinta maior cidade do Brasil), mas meus amigos e familiares tentaram me persuadir do contrário, morar com estranhos? Diziam. Paguei os primeiros seis meses de uma vez e depois paguei logo um ano de uma vez. Nesse caso foram dois os elementos que me ajudaram, primeiramente ter a mente aberta para o novo, mas também saber exatamente onde eu queria viver.

Com quem quero estar?

Essa pergunta pode parecer mais fácil que a anterior, no entanto, frequentemente é mais difícil das três de ser respondida. Primeiramente por que há pessoas que estão em nossas vidas mesmo antes de nascermos, como familiares ou mesmo vizinhos. Enquanto trocar de cidade ou de profissão pode ser um processo pouco ou muito doloroso ou mesmo ser até prazeroso, trocar de pai ou mãe nem chega a ser uma opção.

Um princípio interessante é o de que é bom estar perto de pessoas com as quais possamos falar sobre qualquer assunto, mas principalmente não precisemos falar sobre nada. Outro princípio geral é o de que é bom estar perto de quem nos faz sentir melhor, contudo, apenas cada pessoa poderá responder a essa pergunta.

Respondê-la contudo, é fundamental para não se perceber ao final da vida que se passaram décadas ao lado de alguém que não se amava. Ao se referir aos casais, Verônica Toro escreve que a dúvida é entre viver junto por se está encharcado de amor ou não viver, sem meios termos do tipo, “eu não o amo mas ele dirige para mim”, ou “eu não o amo mas ele é bom para meus filhos”. Mas essa lógica vale para qualquer relação, mesmo aquelas pessoas que por força das circunstância ficam ao nosso lado (como no trabalho) não precisam ter um espaço privilegiado em nossas vidas ainda que estejam nela.

O que quero fazer?

O melhor conselho que já ouvi um professor dar foi: “quando terminar o ensino médio, pegue a mochila e passe um ano viajando de carona”. À época achei fantástico o conselho, e continuo achando, tanto que hoje, como professor, eu dou esse conselho, os estudantes, contudo, se comportam como meus colegas à época, ou seja, riem. Reservar um ano para si próprio, viajando. Um anos apenas para ser, em nossa sociedade que tanto valoriza o ter e o fazer, é tão absurdo que só provoca risos.

Em nossa sociedade somos estimulados desde muito pequenos a fazer. Mesmo a “educação” infantil que teoricamente era para ser um período reservado mais ao lúdico e à socialização é cada vez mais dominada por “modernos” métodos de “ensino”. E a pressão por certas profissões é tremenda, conheci várias pessoas que sofreram por anos porque queriam passar no vestibular para o curso X, após passarem chegaram a concluir o curso a duras penas, e na sequência descobriram que aquela graduação não era o que queriam.

Em média passamos um terço de nossa vida adulta no trabalho, é muito tempo. Para que esse processo não seja penoso, ao contrário, possa render frutos é fundamental que haja uma vinculação, um desejo de trabalhar. Tim Gallwey fala que as empresas bem sucedidas no século XXI serão aquelas que proporcionam um ambiente motivador no qual recebam desafios realizáveis e estejam continuamente aprendendo algo novo. E Domenico De Masi acrescenta que as empresas mais eficientes serão aquelas que tornarem trabalho, lazer e estudo cada vez mais interligados no ambiente de trabalho.

Algumas dicas que podem ajudar na escolha do que se quer fazer são: 1) sem pensar muito liste três pessoas que são referências para você, em que elas trabalham? 2) Quando você está com tempo livre o que gosta de fazer? 3) Quando está sozinho, o que costuma fazer? Além disso, trabalhos curtos podem ajudar na decisão. Ler sobre uma profissão, ou conversar com alguém sobre ela é bem distinto de experimentá-la, vivenciar um trabalho por um curto período pode, portanto , ser uma ótima opção (o que pode ser feito na forma de estágio ou trabalho voluntário).