Amor sem amor, é sangue pisado

Uma história sobre topadas no pé, e amores não correspondidos.

Quando eu era criança eu dei uma puta topada no dedão do pé. 
Sangrou, mas o sangue ficou preso, bem escurinho dentro de uma bolha de pele. Nunca havia visto aquilo, assustada, corri logo a perguntar pra minha mãe do que se tratava: 
 — Mãe, o que é isso no meu dedo?
 — Isso aí é sangue pisado. Deixa ele aí quietinho que vai sarar sozinho. 
 
Fiz o que minha mãe mandou e deu certo. Não sei ao certo o que houve, mas deu-me na telha de relacionar o tal do “sangue pisado”, ao amor. Não o amor normal, aquele que passa na novela, e sim aquele amor que eu quando criança chamava de “amor ruim” que era quando só um amava, e outro não estava nem aí. 
Toda vez que eu via ou ouvia falar de um casal em que o amor não era recíproco entre as duas partes, eu falava toda importante: “Esse amor, é sangue pisado!”

Talvez minha mente fértil de criança tinha razão. Amor não correspondido é tipo uma topada no dedão do pé: Dói pra caramba, mas a gente deixa lá quietinho esperando sarar.
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