Asco

Foi fatal. Naquele dia, sexta-feira a noite, eu soube que eu não amava mais o Roberto. Roberto era o homem da minha vida, nos conhecemos numa vernissage e desde lá não nos desgrudamos mais. Roberto é curador, e eu artista plástica. Era a combinação perfeita. 
 
Na época do namoro era ridículo o quanto a gente era meloso um com o outro. Aos sábados íamos ao museu de arte moderna, gastávamos fortunas com filmes pra minha câmera analógica de gente descolada, e mais outras fortunas revelando as fotos e colando pelos cantos da casa dele e da minha.

Um dia juntamos as escovas de dente, casamos.

O casamento foi lindo, mas outra fortuna gasta com o dinheiro dos nossos pais, mas que foi lindo foi. Bem aquelas festas de gente meio hippie chique com mesas de madeira, pallets, convidados todos vestindo branco e comidas saudáveis mal temperadas, com guardanapos de renda. 
 
Roberto era um homem maravilhoso, tudo que ele tocava era ouro, até a minha pele. As sextas-feiras, quando chegávamos do trabalho, íamos ao mercado e comprávamos um vinho. Merlot, como gostávamos. E mais coisas de gente rica que a gente não tinha dinheiro, mas comprava mesmo assim, tipo queijo Gruyére e pão Ciabatta. Bebíamos feito verdadeiras adegas humanas, dávamos muitas risadas sobre a direita coxinha brasileira, e depois íamos dormir. Dormir não, transar. Sempre transávamos as sextas. 
 
Roberto era bom até nisso. Não era violento como atores pornográficos. Roberto era doce, doce e firme. Me tocava com a doçura de um tocador de arpa, e a firmeza de um violinista. O cheiro dele era inebriante, cheiro de shampoo de chá verde, o cheiro me lembrava o azul dos olhos dele que combinavam perfeitamente com a praia maravilhosa que certa vez fomos de férias em Bali. (Ganhamos esta viagem em um sorteio babaca de ricaços da arte com quem a gente andava vez ou outra)
O cheiro dele deslizava e se arrastava pelo meu pescoço, às vezes eu me arrepiava só dele encostar o corpo no meu. O cabelo dele era uma verdadeira pintura, cachos castanhos graciosamente caídos sobre as orelhas. Roberto fazia eu me contorcer várias vezes em uma só noite, os movimentos dele eram precisos e certeiros, ele sabia exatamente o que eu gostava. Eu era louca por ele, e ele mais ainda por mim. Roberto era tudo, principalmente as sextas- feiras. 
 
Essa sexta feira, eu e Roberto transamos. Eu não senti nada. Fiquei estática. Beijava-o mas com o cuidado de não encostar minha língua na dele, sentia um pouco de asco. 
 — Suzana, o que tá havendo? Se não tiver afim tudo bem, a gente pode dormir. Disse ele, tão embriagado quanto eu. 
 — Não amor, tá tudo bem, sério. Pode continuar. 
Ele continuou, e o nojo foi ficando cada vez mais forte. Desprezo. O corpo dele se serpenteando pelo meu me dava ânsia de vômito, o cabelo dele que antes me era angelical, me parecia mais um sebo nojento e asqueroso. O penetrar dele em mim, esta foi a pior parte, quase me provocou uma úlcera. Me levantei da cama e fui correndo vomitar. Vomitar Roberto.
 
Ali, pelada e sentada no vaso gelado, eu percebi. O Roberto era maravilhoso, a pessoa que eu mais admirava na face da terra e o pai de meu filho que está dormindo no outro cômodo.
Mas eu não o amo mais. E só de pensar no nosso filho, o filho que eu fiz com o Roberto, volto a ter náuseas. O Breno é igualzinho o pai, mesmos olhos, mesmo cabelo. Nojo. 
 
 Amanhã, quando ele for trabalhar, arrumo minhas malas e deixo um bilhete: 
 — Roberto, fui embora. Descobri que não te amo mais. Cuide bem do Breno, sentirei sua falta.