Exu do Blues

Foto de: Fernando Baggi

O rap produzido em Salvador não deve nada para produções de fora. Nada se compara a colocar o fone de ouvido e se deliciar ouvindo uma batida sinistra junto com um “oxente, pivete, barril, vendo bixo, e o famoso e entorpecente: Disgraça.
 
“Cuidado seus ridículos, que tá salgada a pista. Deuses nórdicos atropelam ciclistas, né Batista?”
Este foi meu primeiro contato com um dos trabalhos do rapper Baco, em parceria com Mobb, formando a dupla DDH — Direto do hospício. 
Salgado, imprudente, sujo e vilão. Este é Baco Exu do Blues, dispensando códigos normativos e dando surras sinistras em nossos ouvidos: 
As minas dançam, os manos embalam, e os ladrão bate cabeça
 
Diferente das rimas viciadas que estamos acostumados a ouvir por aí, Baco trás uma nova roupagem ao rap nacional. Ele diz que se volta pra sua própria cidade, fazendo releituras de cenas que já existem. Quem é de Salvador sabe que a cidade conta sua história em cada centímetro de cimento ou de pedra. Vivemos numa cidade que grita o tempo todo. O crack grita, o busu lotado gira, o pagode quebra, o calor escorre, o dendê alimenta e o pixo escancara. “São Jorge batizado, minha terra é sagrada. Salvador terra sagrada”. (Baco Exu do Blues — 999) 
 
Nordeste. Não teste. 
 
Diogo-baco-exu-do-blues são todos uma só pessoa. Baco é lírico, Exu do blues é verdadeiro, violento e cospe fogo, e Diogo é apenas um garoto soteropolitano que tem problemas com álcool, como coloca o mesmo. 
Para Diogo, o que tá faltando pro rap nordestino crescer e ser reconhecido como os demais, é mais foco nas filmagens dos shows ao vivo, “vejo os mc’s com uma performance que não vejo em muitos lugares, quando as pessoas começarem a perceber que o show é um espetáculo, e não um show puro, acho que já vai mudar muita coisa”, disse ele.
 
Baco me lembra muito o Kanye West, tanto nas líricas ácidas e certeiras, quanto estar na iniciativa de validar o rap enquanto arte. Baco acha que daqui uns 100 anos vamos ver algo do Kanye exposto em museus. Já eu… Acho que realmente o Kanye vai ter uma casa nova só pras palavras dele, e que Baco vai estar tocando no Lollapalooza representando os cabra da peste e mostrando que “se jesus fosse branco, ele não ia pra cruz”. 
 

Baco é preto. Sabe que é preto. Gosta de ser preto. Fala preto. Canta preto. E acho que é isso que faz o som dele grudar tanto nos nossos ouvidos. É bom ouvir alguém falar da gente de forma complexa, para além de apenas citar Zumbi e Dandara. Assim como também é bom saber que um rapper excelente, se preocupa em não depreciar a figura da mulher em suas músicas. Dá pra fazer rap bom sem chamar mulher de puta, até porque “sábia é a puta que matou o cafetão”. 
 
Diogo também relembra de alguns rappers baianos, que junto com ele estão nessa caminhada de regionalizar o rap, como Beirando Teto, Mobb, CTC33 e Tosh (old!sgraça), Vandal, Saca Só, Galf, Dimak, e Oddish. 
 
Exu do blues chegou no rap pra mostrar que o que falta pra nós nordestinos (principalmente pretos), é acreditar na nossa pegada, acreditar que o que a gente pega pra fazer, a gente faz bem, e faz bem feito. Falta bater no peito e falar “pai aqui não vê bixo com nada”. Afinal, não somos nós que fomos criados pra trampar debaixo de 30 graus de sol, dia após dia?
 
Seja por vias da facção criminosa para uns, ou carinhosa para outros, a ordem é “pegar o rumo ou pegar a lona”.

Link do canal de Baco Exu do Blues: https://www.youtube.com/channel/UC__z2DsFoNDdWx1vRne7PSg , confere!

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