Kendrick, uma lenda

A história começa com Kendrick Lamar Duckworth, nascido e criado na cidade de Compton, periferia da Califórnia. 
Good Kid, m.A.A.d City surge em 2012, no meio do boom de discussões de gênero e principalmente “raça”. É quando a classe média dos Estados Unidos descobre que rappers negros passaram muito tempo calados, e que agora estão cansados de ouvirem suas histórias serem contadas por outros. 
A capa do álbum tem uma pequena nota em que diz: A Short Film By Kendrick Lamar, o que deixa explícito que o álbum se resume a Kendrick como autor e eu-lírico da narrativa, cantando sobre seu cotidiano como um adolescente nas ruas de Compton sobre a sua perspectiva dos fatos.

Em sua primeira faixa “Sherane A.K.A Master Splinter’s Daughter”, Kendrick mostra pro que veio, deixando claríssimo o resgate do baixo instrumental diretamente ligado a origem do Funk americano. O funk tem sua origem totalmente negra, e teve um longo e árduo processo de aceitação nos EUA, já que nesse ritmo musical, consistia elementos advindos da musicalidade ancestral que os escravos trouxeram dos cultos africanos, e da utilização de seus tambores. 
Nesta faixa, Kendrick se encontra no auge de sua puberdade, contando como conheceu Sherane, sua paixão adolescente. Vale ressaltar que no início da track, ele faz uma oração, mostrando para nós sua condição de humano, que como qualquer humano, peca, e pede perdão quando acha que deve mostrando-se um homem com crenças cristãs.
Ao longo da música, ele entra em apuros quando pega o carro de sua mãe para se encontrar com Sherane e dá de cara com os dois irmãos mais novos da moça, vestindo moletons pretos. A mãe de Sherane, era viciada em crack, e seus irmãos eram gangsters, cenário esse não muito estranho para Kendrick…
É quando entra uma gravação de voz pessoal (elemento precioso do álbum), onde a mãe de Kendrick o lembra qual é o caminho certo, e o manda frequentar a escola ao invés de ficar perambulando pelas ruas de Compton. A mãe de Kendrick, está sempre presente, seja física ou mentalmente. https://www.youtube.com/watch?v=KOBs96SS0Os

Na terceira faixa, “Backseat Freestyle”, Kendrick é convocado a fazer uma rima em freestyle, que significa uma rima improvisada. A faixa começa com Kendrick cantando que Martin e ele, tinham um sonho. Martin neste caso, é Martin Luther King, que em seu discurso “I Have a Dream” (Eu Tenho Um Sonho), diz que seu sonho é que negros possam ser inseridos na sociedade americana de modo positivo. 
Kendrick derruba esse discurso, satirizando-o com um freestyle denso e super complexo, acompanhado de uma batida marcada pelo trap pesado. Para Kendrick em sua adolescência, a referencia de maior positividade no seu contexto de morador de Compton, era ser o gangster com mais mulheres, mais dinheiro, mais jóias, e viajar para Paris. Quando canta,”Respect my mind”, e “ Im never living live confined”, Kendrick nos conta sobre o seu sonho, e quer que nós o respeitemos e o não o confinemos.
https://www.youtube.com/watch?v=IYjFYDvXrVc

Na Quarta faixa ,“The Art of Peer Pressure”, Kendrick narra sobre a “arte da pressão sutil” quando um pouco mais velho, se sente pressionado pelo contexto, a agir como seus amigos, chamados de “homies”.
Kendrick nos pede no imperativo, para prestarmos atenção a esta história contada por ele. A história é sobre um “rolê” que ele deu com seus amigos, que não acabou de forma muito boa. Kendrick costumava ficar longe de drogas e confusões, mas quando estava com seus homies, ele queria mais é estar incluído, ser cool. 
É nesta hora em que a mãe dele reaparece como uma voz alter ego que relembra alguns conselhos: “One day, it’s gon burn you out”. 
Kendrick também percebe que é tudo muito irônico, já que ele geralmente não é um rapaz violento, até estar com seus homies. Seus amigos também tem um papel importante nesta faixa, quando relembram uma frase de uma das músicas de Jeezy, em que ele diz “Last time i checked i was the man oh these streets”. É isso o que Kendrick e seus amigos querem, serem “os caras” das ruas de Compton.
https://www.youtube.com/watch?v=4rxlRn_nub0

Na quinta faixa, “Money Trees”, Kendrick muda radicalmente para uma balada dance music anos 80, e mostra que consegue ser extremamente bom, cantando em vários ritmos. A música é toda preenchida de lisergia, e nos deixa num estado letárgico, ouvindo Kendrick rimar sobre o dinheiro, e como ele vem a vai fácil, dentro do cotidiano de uma cidade violência. Ele também nos conta, sobre o episódio em que seu tio Tony levou 2 tiros em frente a um fast food. 
Kendrick nos deixa num estado altamente comtemplativo, quando diz que todos irão respeitar aquele que atira, mas somente quem morre é quem viverá e será para sempre lembrado: Everybody gon respect the shooter, but the one in front of the gun lives forever…
Para Kendrick, um dollar pode fazer um caminho, mudar .
https://www.youtube.com/watch?v=8ubc1fOmjYs

Na oitava faixa, “mAAd City”, Kendrick faz “bater tudo” com um trap bem marcado. O trap foi um ritmo desenvolvido por usuários e vendedores de drogas em Atlanta, num contexto onde o rap estava passando por um processo de gourmetização, já não se sabia mais o que era pop, e o que era rap. Eis que surge o Trap. 
Nesta faixa, Kendrick interpreta e assume o papel dos gangsters que estavam pelos arredores de seu bairro e da sua cidade. Para eles, não importava se você era boa pessoa, ou suas relações familiares; O importante era de onde você vinha: Fuck who you know, where you’re from my nigga?
Kendrick está com raiva. Ele relembra a morte do seu primo em 94, e mais uma vez a morte de seu tio Tony, e sabe que tudo isso é fruto da violência de Compton. Kendrick quer usar sua raiva para algo bom, ele quer que a gente ouça essa música e reflita que o caminho certo, nunca é o da violência e suas vertentes.
Kendrick agora é um rapaz adulto, que não mais reproduz os conselhos de sua mãe, mas sim, dá seus próprios conselhos.
https://www.youtube.com/watch?v=10yrPDf92hY

É nesse flow que Kendrick embala em mais algumas músicas, e finaliza seu álbum que mesmo tendo sido lançado em 2012, será eterno. 
Kendrick é para a juventude negra americana, a representação de um lugar altíssimo em que se pode chegar através da música e do trabalho competente e bem feito.

Kendrick é o anjo da guarda da juventude negra e pobre dos Estados Unidos. Kendrick é uma lenda.

*Agradecimentos a: Alline Camila e Pedro Leonelli.