O pobre incomoda

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Hoje perguntaram na minha sala de serviço social: Porque o bolsa família incomoda tanto?
Eu, como boa portadora de raio problematizador, respondi pensando alto: Porque a classe média se incomoda com tudo que é feito pra pobre!

E não é que é verdade?

A classe pobre do nosso país, ao mesmo tempo que está em sua maior parte excluída das relações tradicionais de mercado, economia e participação social, é encaixada pela classe média num lugar especial chamado “caixinha da negatividade”, onde a gente deita e rola negativizando os seus costumes, sua cultura, suas crenças e tudo o que é produto de lá.

O bolsa família é um programa desenvolvido para auxiliar pessoas em situação de pobreza e de pobreza extrema. É considerado como pobre, alguém que recebe até R$154,00 por mês, e extremamente pobre, quem recebe até RS77,00 por mês.

O bolsa família incomodada tanto, porque pra nossa querida classe média imersa em falta de informação, cagação de regra e falta de empatia, o pobre pode ficar acomodado na sua cama de casal king size com lençóis de algodão egípcio, no AUGE do seu exuberante auxílio de setenta e sete reais por mês, dados pelo governo. 
E se têm filhos então? Mais acomodados ainda, visto que obviamente dá pra sobreviver tranquilamente tendo um auxílio de míseros trinta e cinco reais para cada filho ou mulher em período de gestação.
 
Depois de lidos os dados, agora vamos todos nos juntar no nosso clubinho da mesa de bar rodeada de latinha de Skol Beats por R$5,00 e falar mal de uma política pública da qual não precisamos, e registrar as fotos da festa, nos nossos iphones de dois mil reais, banhados a ouro.

O que são setenta e sete reais pra nós?

É o jantar do sábado a noite na temakeria? É o ingresso do show do Los Hermanos? Ou a customização dos nossos abadás de carnaval?
E os trinta e cinco? É o que a gente gasta em cada prato, almoçando no shopping com a família tradicional brasileira, e a babá de uniforme em pleno domingo, levando o bebê no carrinho.

E daí vem mais uma daquelas frases socialmente construídas que a gente adora falar, com a mesma facilidade que posta a hashtag #bailedefavela no instagram, na boate onde o ingresso custou cinquenta reais + copinho decorativo pra beber energético com vodka: “Mas pobre adora fazer filho”, “Mal tem o que comer, ainda quer engravidar”, “Não usou camisinha porque não quis”.

Se fizermos uma pesquisa sobre municípios rurais extremamente pobres, que são os que mais contam com o auxílio do bolsa família, em alguns deles (um número muito grande) não se tem supermercados, nem centrais de correio, muito menos postos de saúde que oferecem preservativos gratuitamente. O que lhes faz pensar, que a população destes lugares, detém e tem acesso ao mesmo conhecimento que temos, sobre educação e prevenção sexual? 
Mesmo que houvesse a distribuição gratuita de preservativos nos postos existentes, não é ensinado como se usa um preservativo corretamente. E se o preservativo furar? Também pouco ou quase nada se sabe ou conhece sobre pílulas do dia seguinte.
São um emaranhado de coisas que nos fazem refletir, sobre a nossa condição de classe média com acesso a todo tipo de conhecimento, utilizando-o para julgar e tentar tirar um benefício de pessoas necessitadas, que no fim das contas, nem coça no nosso bolso.

O funk incomoda
O pagode incomoda
O bolsa família incomoda
As cotas incomodam
O carnaval sem cordas incomoda
O ônibus cheio de trabalhador suado incomoda
O shortinho mostrando o bumbum incomoda (e muito)
O rolêzinho no shopping incomoda
O boné fluorescente da Nike incomoda
O Pablo tocando alto no fundo do carro incomoda
A adolescente grávida incomoda 
As políticas públicas incomodam

O pobre, incomoda.

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