Transtorno

Desculpem o transtorno, ou a calmaria. Precisamos falar do Ivan. Na verdade a gente não precisa. A gente não precisa fazer nada porque ninguém é obrigado, mas eu quero.
O Ivan é aquele cara meio baixinho, de cabelos castanhos e olhos pequenos com umas tatuagens meio desconexas, vivendo a dualidade de gostar de gente meio pombo como Bukowslixo, ops, Bukowsky (talvez ele desgoste um dia, com a minha pressão psicológica) e gente genial tipo Mário Quintana.
Ah! Esqueci de dizer. Ele é meu namoradonoivo. Ainda estou me acostumando, mas a pasta “wedding” na minha área de trabalho todo dia tem foto nova que eu pego no Pinterest. Pinterest é aquele lugar com tudo que o nosso dinheiro não pode comprar.
Mas já que esse texto não é sobre mim, vamos voltar pro Ivan. Ivan é um rapaz tranquilão e super na dele, mas olha, se alguém tirar ele do sério ele fica bem puto. Ivan é aquariano e aquarianos tem dessas de pairar entre a loucura e a fineza. Fineza… Ivan não é moço fino não. Ivan deita com a cara no meu tapete imundo, e as vezes cheira meu sovaco pra ver se já tá na hora de eu tomar um banho. Banho. Eu odeio tomar banho porque aqui em casa o chuveiro é frio. Ivan gosta de banho.
Música. Ivan gosta de música, eu gosto de música. Eu choro com Elza Soares. Ivan se arrepia com Nação Zumbi, e se tivesse dinheiro ia em todos os shows, principalmente os no Recife. Recife. Ivan adora o Recife. Dinheiro. Ivan também adora, mas não tem tanto. Tirando as contas pra pagar, ele quer voltar a ser aquele menino que jogava bola na rua, ou aquele homem de 24 anos que adora filmes do Adam Sandler e Mister Bean. Eu odeio Mister Bean e Adam Sandler também acho meio blerg. Mas talvez um dia a gente viaje pro Recife.
Quando eu conheci o Ivan, me assustei. Ele era mais branco que um papel! (não frequentava tanto a praia). “Nada contra brancos, tenho até amigos que são”.
Gracinhas a parte, eu fiquei encantada com aquele jeitinho dele super contido, mas que se esforçava muito pra ser legal comigo. Eu chamei Ivan pra dançar comigo sem fazer a mínima ideia de que ele não sabia dançar. Dança. Na verdade saber ele sabe, só precisa de um treino aqui outro alí. Ele foi mesmo assim, mesmo morrendo de vergonha, e nesse mesmo dia na presença de algumas das pessoas que eu mais gosto no mundo (e que vejo bem pouco), o Ivan me deu um beijo. Ou eu que beijei ele? Seilá. (ele insiste que eu desviei do beijo dele e das tentativas anteriores de paquera)
Mas volta pro beijo. O beijo foi beijo bom. Confesso que não achei que fosse sentir aquele calorzinho que começa no ventre e termina no coração. Coração. Foi onde ele me tocou no dia que me deu um bilhetinho menor que o meu dedo dizendo que me amava. Ainda bem que só o papel era pequeno. O amor é grande.
Era estranho ouvir Ivan falando de amor, assim como demorei algum tempo pra aceitar que ele com aquela carinha de anjo da vovó, tinha umas tatuagens old school e um piercing no mamilo. O piercing eu ainda não me acostumei, continuo achando estranho sempre que vejo. Ah, as tatuagens! Ivan tem várias, eu tenho só três.
Mas a casa, sim. Não demorou muito pra me acostumar não. Ivan nunca me chamou pra morar com ele de fato, usando todas as letras. Mas é o jeito dele. Ivan fala em 10 frases o que poderia falar em uma palavra. As vezes ele faz o contrário também. Ele começou dizendo que a madrinha dele tinha achado um vestido vermelho meu por engano, e perguntou se era pra avisar pra moça que lavava as roupas, se iriam ter roupas femininas na trouxa com mais frequência. Eu sou taurina. Entendi como uma sugestão pra deixar uma muda de roupas na casa dele. Eu sou touro, Ivan é aquário.
Mais tarde eu entendi como ele chamando a casa dele de “nossa casa”, quando me deu a chave do apartamento de presente, com um gatinho.
Esqueci de falar, eu odiava gatos. Ivan me ensinou a gostar de gatos, temos três. Os três são nossos filhos. Filhos. Antes Ivan não queria ter filhos, hoje ele quer ter mais de um, e já até sabe o nome e como vai educá-los e vesti-los.
Ivan achava que feminismo era Sara Inverno, e eu achava que Netflix era uma invenção chatíssima insuportável do rolê pós-moderno. Hoje Ivan questiona a si mesmo, e a mim, sobre patriarcado, macho palmiteiro e “isso é construção social” enquanto assiste Gossip Girl junto comigo, comendo pipoca. Mas é aquele ditado né, as vezes não tem pipoca. Ivan ama pipoca, já eu acho meio pombo, não faço questão.
Falar em pipoca e falar em aquele ditado, “alô alô graças a Deus”, Ivan sabe todos os memes da Inês Brasil. Eu que ensinei, assim como ele me ensinou que pro cuscuz ficar bom tem que ficar com consistência de areia molhada, e que nunca devo escolher pisos de porcelanato. Porcelanato apesar de bonito é uma merda e suja pra caramba.
Ah, gente. Tinha esquecido. Ivan me ensinou que eu tenho que “viver a vida”. Talvez seja porque eu planejo o que a gente vai fazer no dia seguinte, sem que o dia anterior tenha sequer começado. Mas eu tô vivendo a vida, e talvez correndo. Por isso esse texto é cheio de pontos de continuação, que é pra vocês lerem correndo assim como eu escrevo escrevendo. Ivan é meio lento, já eu estou sempre correndo.
Não leva a mal não, “desculpa o transtorno”. Ivan adora os textos do Gregório Duvivier. Eu detesto, mas peguei emprestado a ideia dele pra poder escrever esse texto aqui. Texto. Ivan escreve textos, eu também. Ele gosta mais de crônicas, já eu prefiro os poemas e artigos de opinião.
Eu e o Ivan também não temos um filme de longa metragem da gente junto, talvez a gente até tenha alguns vídeos dele me maquiando e algumas fotos. Muitas fotos. Eu amo fotos, o Ivan não faz muita questão. Com fotos, filmes, ou não, eu sei que o Ivan aprendeu a cozinhar, aprendeu a cuidar de cactos e ir no MAM só pra comer e ouvir o jazz do lado de fora. E eu… Aprendi sobre cuscuz, amor, acampamento e uma coisa primordial: Quem tem gato, não deixa de caçar com o cão, mas faz faxina toda semana.
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