O Sol Voltou, Luís Severo | Capa de João Sarnadas

Luís Severo Não é Rock 'n' Roll, é Folclore. E ainda bem

O Sol Voltou e trouxe consigo 26 minutos de canções vernais que têm como pano de fundo as cores da Primavera. Já sabíamos que estava a caminho mas, mesmo assim, o álbum apareceu de surpresa — as únicas informações anunciadas antes do lançamento foram as datas do concerto de apresentação.

Kenia Sampaio Nunes
May 21 · 4 min read

Com o passar de cada disco sinto que vou evoluindo mais um pouco, comentou Luís Severo em entrevista no ano passado. Cara D'Anjo, Luís Severo, O Sol Voltou — no primeiro canta sobre o amor e o passar do tempo, no segundo sobre o desencanto com o frenesi urbano e a precariedade. No mais recente, dentre tons de amarelo, verde e cor-de-rosa, parece atingir um nível poético metafísico. Permanece a preocupação com os acontecimentos mundanos, continua a mostrar que não é mais nem menos que cada um dos seus ouvintes. Referencia pontos conhecidos da cidade de Lisboa e do país (o que antes era Alvalade é agora o Campo Santana, o que fora Videmonte fica agora nos algures minhotos). Luís desbanaliza o banal, faz do dia-a-dia algo belo e harmonioso.

A esperar-te às seis da tarde
Tu tens colegas e emprego
Papéis, vida de rua
E a força da bondade nunca te enganou

Em O Sol Voltou, Luís mostra-nos que é tudo menos Severo. Tem a amabilidade de nos transportar a tempos idos, envolvendo-os numa aura etérea. Cria sinestesia a partir de memórias adolescentes pintadas a tons rosados, recorda o aprender a fumar, o cheiro a champô pela manhã que se mistura com o das flores do bairro Campo Santana, de correr para o autocarro mal-vestido e sem comer (o Luís Severo faz música para gente como a gente — como eu). Ao mesmo tempo que se foca na capital, Luís Severo parece migrar para um mundo mais natural, onde o tempo não é contado pelos dias, semanas ou meses, mas sim pelas estações:

Se a resposta vem com o tempo
E a Primavera já não passa do chão
É teimosia se ainda te lembro
Ou se te esqueço para lembrar o Verão

Luís Severo | Fotografia: Rita Carmo / Ilustração: Kenia S Nunes

O Folclore em Luís Severo

Em O Sol Voltou, Severo faz uma pequena viagem ao século passado. Em 'Acácia', toca a guitarra melancólica que Leonard Cohen certamente emprestou; a abertura de 'Joãozinho' leva-nos até 1981, ao clássico 'Com um Brilhozinho nos Olhos', de Sérgio Godinho.

Mas não é apenas nesta viagem que Severo embarca. Em 'Cheguei Bem', arriba para o Norte. A sua voz sobressai sobre ritmos folclóricos, a piscar o olho ao vira minhoto, numa canção que permite colocá-lo no meio de grandes cantautores como Zeca e B Fachada. Luís eleva a música popular portuguesa a cada guitarrada e passinho de dança.

Aqui, folk e fado complementam-se. Em entrevista ao Observador, Luís admite ter algum fado em 'Acácia', a tal canção cuja guitarra melancólica parece vir de uma canção de Leonard Cohen “é uma canção que tem bastante de fado e que nunca teria feito se não tivesse ouvido imenso fado”. Se música está para o tempo como as imagens estão para o espaço, tenho a certeza que é 'Acácia' que "O Velho Guitarrista Cego" de Picasso está a tocar.

Na sala o medo já solta a guitarrada
E o coração sobe e desce
É só o ar que se vai
Que sede louca te despe a memória?
Que voz te conta metade da história?

Li um texto do Mia Couto no secundário que dizia algo como "domingo não é um dia, é uma ausência de dia". É engraçado ver essa frase tão bem representada em formato musical — a preguiça dominical, o fogo que não se deixa arder num domingo à tarde onde tudo é resquício de sábado à noite.

Domingo o tédio trouxe a paz também
Deu-te um silêncio até ser voz de alguém
Moleza e juras de amor
Enquanto o fogo não acorda

Um homem só, muito bem acompanhado

Depois de 11 anos a fazer música acompanhado (em Cão da Morte e nos Flamingos contou sempre com Coelho Radiactivo, ou João Sarnadas) germinou O Sol Voltou sozinho. As guitarras clássicas, acústicas, elétricas e os pianos são a base do disco, todos tocados por ele. Passou quase dois anos sem compor e foi nos Açores, durante uma residência na Casa das Artes Contemporâneas, que Luís escreveu as primeiras canções do disco. Continuou o projeto entre Alvalade — onde o podemos encontrar a passear com o seu cãozinho, fiel escudeiro que merece menção honrosa em 'Joãozinho' — e "a casa no Ribatejo do querido Tio José Romão."


Neste disco, Luís Severo assegura o regresso do sol que desperta novas sensações e enaltece as existentes. Não se ama quantitativamente mais ao calor, mas é certo que se ama mais devagar — é mais lenta e saborosa a degustação. Talvez seja por isso que Severo considera este um disco que “é mais amor e menos paixão”.

Há muito tempo que não se via bom tempo mas, felizmente, O Sol Voltou. É bonito e promissor pensar que alguém tão jovem, que faz música que conversa connosco, consegue fazer a sua vida a partir de algo que tanto gosta e que faz tão bem. Luís Severo, o disco desta Primavera — e de todas que estão por vir — é teu.

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