Cidadãos Globais

Uma só bandeira?

Muitas escolhas sobre quem você é foram feitas muito antes de você chegar a esse mundo. Seu nome, sua nacionalidade, sua língua, sua religião e sua rotina são praticamente decididas pelas pessoas que vieram antes de você. Nossa vida é fruto de um processo histórico que muito tem a nos ensinar sobre os erros e acertos de nossa espécie, algo que precisamos estudar para guiarmos nossas decisões com precisão. É necessário abstrair dela o útil para compreendermos o nosso presente, mas não deve ser a História em si quem determina o nosso futuro.

No final de 2015 finalmente sai para realizar o meu primeiro intercâmbio. Minhas expectativas quando cheguei eram grandes e confusas e eu achei que estava bem preparado, porém ideias assim se mostraram bem erradas. Vivi tanta coisa, conheci tanta gente e tive tantos insight’s atraentes no país para o qual vim que enquanto escrevo esse texto nos últimos dias por aqui, me convenço de que o nosso mundo precisa de um “cidadão”, como definiu Aristóteles milênios atrás, aplicado nos tempos de hoje. Precisamos que a humanidade deixe de se classificar pela região onde nasceu ou por qualquer outro critério sem sentido e passe a construir uma civilização global, vivendo a vida em sua essência para o bem próprio e pelo o de todos.

A época em que vivo me dá ainda mais convicção de que esse deve ser o nosso futuro. Basta pensarmos nos últimos acontecimentos que vem nos chamando a atenção do mundo inteiro: Terroristas buscam vingança pela exploração ocidental e o ocidente acusa as diferenças religiosas e filosóficas como causadoras das atitudes deles. Governos e empresas discutem e organizam exércitos para garantir suas partes do bolo da economia global. Em Paris os líderes de vários países se reuniram para tentar definir ações que mais se parecerem com desculpas pela nossa culpa sobre os últimos acontecimentos ambientais. Todos esses últimos eventos e discussões são frutos da nossa mentalidade arcaica de “nação”, nós estamos limitando os indivíduos de buscarem uma vida plena à um confinamento burocrático e desanimador dentro da cena política comandada por esse ou aquele Estado.

Deixando agora a política de lado, eu estou falando da verdade que descobri ao viajar. Percebi que é possível encontrar pessoas com vidas quase inimagináveis e inspiradoras em todos os cantos para o qual se vai. Antes de vir pro Egito eu me confinava dentro do meu ciclo de ideias, tendo contato com o externo apenas pelo o que lia e assistia por ai, nada me parecia novo de verdade. Me perguntaram várias vezes antes de viajar “O que você vai fazer lá? País pobre, sem cultura…” e eu respondia “Eu quero ver se essa ideia ai é verdade” e aqui vários egípcios me perguntaram, depois de saberem das perguntas anteriores, “O que você acha do meu país agora?” e eu ainda não sabia responder. Não fujo da ideia de que a melhor resposta que posso dar é que, apesar das dificuldades, todos os lugares tem suas qualidades e defeitos e o que vale mesmo é a experiência de ver aquilo de perto. Como li no livro A Startup Enxuta do Eric Ries (que recomendo para quem curte) sobre a filosofia japonesa de genchi gembutsu, a única maneira de solucionar a realidade é ir e vê-la por si mesmo.

Fico feliz em ver que a vontade de viajar está se fazendo cada vez maior entre jovens como eu, não importando nem mesmo a quantidade de dinheiro na conta do banco. Aos poucos vejo empresas, politicas e programas nascendo todas voltadas para uma visão de civilização global, mesmo que bem devagarinho. Minha esperança é que em pouco tempo nós, que somos o futuro, iremos perceber que assim como tudo em nossa volta, a regras de se viver em sociedade também estão evoluindo em uma velocidade alucinante e de que temos sim a chance de “mudar o mundo” na nossa frente. Esse sonhos de fazer a diferença está cada vez mais palpável, basta agora o nosso trabalho de transformar o abstrato em realidade.

A informação e nossa própria vontade são as únicas armas que temos contra todos os problemas que precisamos solucionar, é nosso dever usa-las por inteiro e espalhar os nossos próprios frutos por ai. A verdade para mim é que o nosso mundo só vai “mudar” ou “ser salvo” se pararmos de acreditar que dependemos do surgimento de um herói super poderoso na forma de pessoa ou governo que virá e revolucionará tudo. Essa “revolução” será construídas pedaço por pedaço pela contribuição das iniciativas de cada um de nós, por menores que sejam. Precisamos colocar nossas mentes para funcionar e pensar de maneira complexa, como uma rede viva e em perpetua transformação.

Também não podemos deixar de curtir e viver o que há de melhor para se viver no nosso planetinha azul, de saborear os gostos do dia e da noite em todo lugar e de garantir que quando estivermos bem velhos teremos muitas histórias para contar e inspirar as próximas gerações. Curtir a música, a comida e as ilusões de outras culturas é sem dúvidas uma experiência alucinante demais para não ser vivida em quanto se tem tempo. Relembrando uma ideia que tive aqui nas terras dos faraós: Se um dia, bem aleatório, você se encontrar com alguns alienígenas em outro lugar do universo e eles te perguntarem “Da onde você é?” o que irá responder? Que você é do Brasil ou qualquer outro desses nomes? Eles vão rir quando descobrirem que é assim que você chama um lugar especifico em uma pedra flutuante da onde você nasceu no espaço. Eu acho que a resposta mais digna para o futuro que almejamos é “Eu sou do mundo!” e nem uma palavra a mais. O tempo e o espaço estão em constante movimento, mexa seu corpo e entra nessa dança sem fim, se joga de cabeça em qualquer lugar e ajude com suas próprias mãos a encontrarmos juntos aquela chance de “mudar o mundo” que vimos na TV quando mal sabíamos o que isso significava.

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