THE WATCHER

Eu olhando o mundo

Eu sempre me senti diferente. Desde novo olhava o mundo de uma forma aparentemente estranha quando comparada com a de outras crianças. Enquanto a maioria delas não esperavam nada a mais do que recebiam, eu sempre queria tudo. Eu queria o que eu queria na hora que eu queria e não media esforços pra isso. Eu era uma criança egoísta.

Não me importava onde todos estavam brincando, eu estaria onde queria estar. A maioria dos meus intervalos nos primeiros anos de estudo foram dentro da biblioteca, vendo figuras de animais em livros de biologia. Minhas preferidas eram as de dinossauros. Eu amava imaginar como aqueles seres gigantescos poderiam ter vivido em todo lugar. Achava impressionante como ninguém se surpreendia com isso, como todo mundo via pouca graça no tempo e no espaço. As pessoas eram tão superficiais pra mim, vivendo apenas o que era real. Eu gostava de imaginar tudo.

Claro que com o passar do tempo a gente vai crescendo. Comecei a perceber que toda aquela mágica de imaginar perdia a graça e por isso tantas pessoas simplesmente não lembravam mais dela. Em algum momento começamos a perceber que o mundo não é tão bonito, tão incrível nem tão equilibrado quanto nos parecia enquanto eramos crianças. Até nossos pais nos decepcionam quando crescemos. Mesmo assim, não demorou muito para eu aprender a lidar com isso. Por mais que parecesse natural crescer e esquecer a imaginação, eu nunca consegui parar de observar. Nunca parei de querer mais do que eu via.

Essa é a minha cruz. Ao mesmo tempo que eu busco em todo lugar algo maior, melhor e mais belo do que vejo, me choco com a realidade nua de não ser plenamente capaz de encontrar tal perfeição, nem de construir-la. Nossa existência humana nos limita, nossas capacidades, nossa longevidade, nosso corpo. Não há nenhum ser humano na terra que será algum dia capaz de solucionar todos os problemas, até mesmo porque eles não foram feitos para sessarem. Problemas existem e sempre existirão, essa é a lógica da vida. Para que serviria nossa capacidade de raciocinar se não tivéssemos sobre o que pensar? Nossas mentes poderiam simplesmente se contentar em sentir que já praticaríamos nossa vida com plenitude.

Porém, ter consciência de que sou incapaz não me faz ter menos vontade de conseguir. A realidade não vence a minha imaginação, assim como não vencia quando eu era criança. Eu acordo todos os dias sonhando com um mundo melhor, com mais felicidade e soluções em todos os aspectos de que tenho noção. Essa incongruência me penaliza, me zoa dizendo que sou um completo imbecil e me restringe a condição de mero observador. Eu me sinto encurralado em uma condição de assistir o mundo, o tempo e as coisas acontecerem sem nada poder fazer a respeito. O conflito entre o real e o imaginário me fez deixar de ter vontade de agir. Me sinto como um gavião medroso que vê tudo lá de cima, mas que tem medo demais de descer e agarrar sua presa, ou que tem gula demais para escolher apenas uma presa para descer e agarrar. Ele quer todas, mas sabe que é incapaz de realizar tantos voos e fica indeciso de como agir.

É exatamente nessa situação de observar e não viver que me encontro hoje, nos meus quase 20 anos. Lembro de sempre ter ouvido das pessoas que quando chegamos nessa idade entramos em uma crise existencial sem precedentes. Eu sempre me senti em crise, então para mim não será problema. Meu problema é não conseguir fazer nada a respeito. Qual caminho trilhar? Que profissão seguir? Como eu quero agir no mundo, uma vez que sou incapaz de agir em tudo? Tantos limites são pequenas demais para o tamanho da minha imaginação. Eu quero o mundo e quero ele por inteiro. Meu maior pecado é, sem dúvidas, a gula.

PS: Esse texto foi uma reflexão e ao mesmo tempo uma necessidade de se expressar. Provavelmente em breve estarei tomando as decisões corretas (ou erradas) e vivendo um pouco mais. É disso que se tratar viver, nossas experiências vão nos moldando. Quero que quem leia e se sinta igual a mim leve a seguinte mensagem consigo: problemas existem, mas soluções também. Lá na frente eu vou ler isso aqui e vou dar risada, vou estar feliz. É essa minha esperança, a única que me faz levantar todos o dias. Carreguem isso com vocês!

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