Leviatã e a batalha que a voz não ousa narrar

Kennedy Noia
Jul 30, 2017 · 3 min read

Sempre gostei de música instrumental por acreditar que os instrumentos falam conosco de forma mais direta que as palavras.

Já estou acostumado com as pessoas, em geral, não gostarem das músicas que gosto, pois, segundo elas, são sempre muito longas e agonizantes.

Chego a conclusão de que muitas notas seguidas, em um curto espaço de tempo, deve deixá-las agoniadas. Engraçado como isso sempre tranquilizou minha mente, mesmo quando eu não entendia nada do poder da música.

Se me permitem contar um pouco da trajetória do meu gosto musical, tentarei mostrar um pouquinho da minha visão auditiva.

A música do vídeo abaixo é de Neal Morse. Sim, é rock, é progressivo, entre outras coisas. E se essas palavras te incomodam de algum modo, dê a elas uma segunda chance. Quem sabe não possam te trazer alguma mensagem ou aprendizado? Afinal, são apenas rótulos que definem alguns costumes em ritmos e timbres. Sugiro que primeiro ouça-a e só depois leia isso. Se necessário, torne.

Neal Morse & Band — Leviathan

Não farei uma análise da letra, pois isso me consumiria tempo para explanar minha interpretação sobre as palavras e muito mais esforço que a análise dos sons. Eis um breve resumo:

A música fala de um terrível monstro que respira em fogo, vindo das profundezas dos mares e que se chama Leviatã. Apesar de pequeno, cresce da ebulição de sangue, de Faraó a César.

Ela começa com notas longas e carregadas de tensão. É o início da trilha sonora de uma cena que estamos prestes a assistir. Preparem seus ouvidos!

Uma pausa. Logo, a tensão é quebrada com um momento de correria, no qual as notas longas e tensas dão lugar às breves, em curtas e corriqueiras frases de fugas e mais fugas. Incessantes passos parecem nos levar a maior distância possível daquilo, mas não se deixe enganar, pois este é o momento em que o vilão pode aparecer de supetão.

As rotas de fugas se estreitam e se esvaem, com isso a tensão volta à cena. Em desespero, procuramos uma saída e tudo que encontramos é a ameaçadora presença do mal iminente.

Este é o momento em que todos estamos com a respiração em pausa. Apesar de sempre acreditarmos que o mal perecerá, não conseguimos enxergar uma saída para a situação. Nossa Fé se abala e, para o bem dos corações frágeis, esta é a deixa para uma pausa na forte emoção e apresentação de palavras que entram propositalmente para acalmar os ânimos das cordas, teclas, pratos, tambores e dos nossos ouvidos.

É também um dos fatores que não me deixam gostar tanto das vozes em músicas, elas cortam o desenvolvimento desenfreado no momento em que, cordialmente, os instrumentos se acalmam para deixar a voz passar a sua mensagem. Mas, para minha alegria, na menor pausa de inspiração, eles voltam a se manifestar e preencher nossos ouvidos.

Ah, este é o momento que todos esperamos ansiosos. O confronto, o final… o Bem contra o mal. E quando Leviatã se vira para você (“And when he turns on you”), É MELHOR VOCÊ TER CUIDADO (“YOU BETTER LOOK OUT”)!

Leviatã representa o mal que incansavelmente insiste em nos encontrar (“There will be no place to flee for Leviathan”), e se você também se pôs na pele do protagonista, este é o momento em que devemos nos resumir a nossa insignificância e permitirmos que seja feita a vontade Dele e não a nossa. Não ouse duvidar disso, pois a capacidade de aniquilar o mal, sem Ele, não nos foi dada. Apenas assista, com seus ouvidos, o gran finale, a cena tão aguardada, a batalha que a voz não ousa narrar.

E este é o momento em que não precisamos de nossos olhos para enxergar. Permita que os instrumentos te contem como essa batalha termina.

Leviatã sucumbiu? Não sei, apenas a sua Fé pode te contar o que você viu e como tudo acaba.

O que eu sei é que um dia todos nós estaremos livres de Leviatã (“One day we all will be free from Leviathan”).

Quando eu escutar essa mesma música, em um outro momento, talvez eu reinterprete as fugas como o momento em que um bravo guerreiro, divinamente inspirado e em ascensão de Fé, encontra forças para encarar em definitivo o terrível mal que o espreita.

E é por isso que, nas músicas, prefiro os sons dos instrumentos às palavras.

Kennedy Noia

Written by

Amante, desenvolvedor, jogador, crossfitter, evangélico, ouvinte e por último e menos importante: autor. Considero que todas estas qualidades são redundantes.

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