Uma Vírgula Opcional

Ele foi embora, passou pelo portão, deu-me um beijo e partiu. Tenho a sensação de que não posso segurar os meus sentimentos dentro de mim, me parece demonstrar na minha face toda minha inquietação das milhares de possibilidades de poderiam surgir e desencadear a partir desta noite. Sei que posso estar sendo precipitado, é como se eu colaborasse para que a desgraça viesse até a mim, sei que parte disso é verdade, eu a temo, mas ao mesmo tempo sou arrastado a viver num risco constante. Seria mesmo correto afirmar que isso é um risco constante? Se há milhares de dias que vivo num deserto, não, melhor, eu vivo num oceano de águas profundas que me asfixiam dentro de minhas loucuras diárias. Ah… se não fosse por elas, se não fosse por elas eu já poderia ter erguido meu nome dentro deste mundo. No fundo tenho potencial, eu sei que tenho, mas contar a mim mesmo que tenho este potencial é dizer que sou um fracasso. Oras, porque? Se eu contasse a mim mesmo que tenho potencial é mais do que isso… estou contando que não fiz nada até agora e que estou perdendo o fôlego em cada segundo que passa… Como quem morre pedindo ar, se agonizando na cama enquanto todos olham sem poder fazer nada, até que a última lástima é respirada e o corpo paira sozinho sob a cama. Meu medo… este é meu medo, às vezes acho que é a solução, deixar este mundo e seguir ou simplesmente apagar minha existência. Porque, se eu não existisse o mundo seria o mesmo, apenas com a ausência de uma única vírgula opcional…

Uma vírgula opcional, sem essa vírgula opcional ele não teria partido, ele não precisaria dar-me um beijo e partir. Eu fiquei no portão como se entrar fizesse-me encarar a verdade que inundava minha mente, como se eu tivesse que olhá-la de frente, como você olha um parente distante depois muito tempo, não, um parente é algo muito natural, é como se você fosse obrigado a olhar nos olhos daquela pessoa que você brigou e não fala há mais de 5 anos. É aquele vazio no estômago como fôssemos vomitar, a mão gelada suando, os olhos querendo escurecer a visão para não encará-lo… Se eu entrasse, a vírgula opcional me chamaria para uma conversa séria, daquelas que lhe dizem com firmeza: “precisamos conversar”. Era exatamente desta conversa que eu estava fugindo, se eu entrasse, se eu me encarasse no espelho, essa conversa viria automaticamente, ela me jogaria contra meus próprios atos… Eu posso ser punido, mas a ideia de eu estar matando alguém me tiraria o sono por meses… eu não posso entrar, eu não posso encará-la, não antes de ter a consciência de minha existência neste exato momento. Sou apenas uma vírgula opcional. Sim, apenas uma vírgula opcional.

O que preocupa não é exatamente o fato de o que pode acontecer com ele a partir de hoje, o que está me sufocando é eu ser o causador disso tudo, essa vírgula opcional que mata. Eu não poderia viver sabendo que foi eu que o fiz. Eu não poderia ser a mão que aperta o gatilho… Eu vi imagens em seus olhos. Antes que nossos lábios se tocassem, eu olhei por alguns segundos dentro de seus olhos, olhei como se buscasse alguma pista dos próximos dias, se tudo que ele me disse aconteceria de fato… se ele teria coragem de ir até a última linha… por mais que seja meu maior desejo, não posso segurar suas mãos para sempre… eu não tenho o direito de controlar a sua vida. Seus olhos encobriram meu ser, por pequenos segundos eu estava dentro de sua alma, tendo uma conversa muda… Tinha tanta coisa pairada sob nós, tantos silêncios que diziam mais do que qualquer afirmação… Se fôssemos um papel e um lápis… estaríamos cheios de poesia, poesias incompreensíveis aos olhos de quem ama o sublime, que ama as cores vivas, que sorri por esporte. Sorri por esporte… Eu sorri por esporte ao seu lado… talvez porque parecia um jeito mais fácil de disfarçar minha inquietação, já que minhas palavras desnudavam meus pensamentos. Então, encoberto pelos seus olhos eu pude apreciar sonhos, névoas, amor e desespero… havia mais sobre mim e sobre meu futuro que ele mesmo poderia imaginar, nós estávamos de mãos dadas caminhando para um lugar frio e desconhecido. Nos jogávamos num penhasco aparentemente sem fim… abismo.