A Décima Terceira

“O futuro será só de garotas?”
“Só nos resta a esperança.”

Eu não gosto do Steven Moffat. Dito isto, eu também não posso negar que esse pequeno diálogo escrito por ele — no último episódio da 10a temporada de Doctor Who, The Doctor Falls — me deu esperança de termos uma identidade feminina para a personagem que há 54 anos é interpretada por um homem (um homem branco, destaque-se).

Desde que Doctor Who foi retomada, em 2005, os fãs clamam por duas coisas: uma Doctor mulher e um Doctor negro (ou asiático). Não é à toa: a Inglaterra é um dos países mais plurais da Europa — graças ao império ultramarino britânico e, hoje, à Commonwealth — e esse público necessita de representatividade. O show e seus spinoffs deram um jeito nessa questão adicionando uma grande variedade de companions e personagens secundários.

Mas o Doctor ainda era um rapaz. E depois, um homem.

A décima temporada de Doctor Who foi inteiramente voltada para o feminino, se observarmos: tivemos o ápice de participação de Missy, a Timelady, identidade do arquirrival do Doctor, Master. Tivemos Bill, uma companion negra e lésbica. Tivemos as crianças de “Thin Ice”, chefiadas por uma garota; o “vilão” de “Knock Knock” era uma mulher; descobrimos em “Extremis” um pouco mais da nova interação entre Doctor e Missy; temos uma chefe de estado e uma cientista, Erica (que espero que reapareça como companion) em “The Pyramid at the End of the World”; a memória da mãe de Bill salva o mundo em “The Lie of The Land”; a imperatriz marciana em “Empress of Mars”; a guardiã picta do portão do comedor de luz em “Eaters of Light” e Bill e Heather, juntas, colaborando para o salvamento e regeneração do Doctor em “World Enough and Time” e “The Doctor Falls”. Isso sem falar na conversa sobre gênero que Bill e Doctor tiveram no começo de “World Enough and Time”, quando o 12o Doctor fala para Bill que os gallifreyanos não estão presos aos estereótipos de gênero tão mesquinhos do ser humano.

E ainda assim, há quem esteja indignado com a 13a Doctor. E ainda assim há quem diga que vai abandonar a série. Há quem tenha assistido doze anos do novo round de Doctor Who, ou cinquenta e quatro anos do total da série e ainda esteja preso na mesquinhez de fazer a personagem sempre um cara branco — e jovem, pois quando Peter Capaldi entrou no papel fomos testemunhas de críticas etaristas muito pesadas.

Por que fazer uma identidade feminina?

Não sei se daí é possível notar, mas 51% da população mundial é composta de mulheres.

Se esse não for argumento suficiente, vou pegar emprestadas as palavras da amiga Gabriela Ventura: meninas precisam crescer sabendo que elas também podem ser as pessoas mais inteligentes de uma sala.

Imagina a importância de uma mulher falando isso pra um monte de meninas?

É isso que a Doctor é: a pessoa mais inteligente da sala, sempre. Ainda que tenha defeitos — como todo ser senciente — não é a beleza, a sensualidade ou a aparência que dão destaque à personagem, é a inteligência. É o heroísmo. É a sensibilidade e a decência de quem se sente responsável por um universo inteiro.

Nossas meninas vão assistir a série e querer saber mais sobre astronomia, história, física, química, matemática… Porque vão querer ser como ela. Nada de princesa. Nada de esperar o salvamento. Nada de ser alívio romântico ou cômico. Representatividade importa.

Quando pensamos no fato de que Doctor é um alienígena de 9000 anos que percorre o tempo e o espaço salvando planetas e eras da destruição, o fato de agora termos uma mulher interpretando a personagem pode passar por um detalhe. É só entretenimento, que diferença faz se é homem, mulher, branco, negro?

Mas quando observamos pelo ponto de vista da representatividade e o estímulo emocional e cognitivo das nossas crianças, este detalhe faz diferença pra milhares de meninas no mundo inteiro. Milhares de mulheres, também, a quem eu estou querendo enganar? :)

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