A volta do Movimento Estudantil

Os filhos do ‘Gigante’ e a ocupação das escolas em Caxias do Sul

Manifestação dos estudantes das escolas ocupadas em Caxias do Sul, em frente à 4ª CRE | Foto: Kétlin Varela

Se em meados de 2013, quando os brasileiros foram às ruas protestar sobre o aumento das passagens de ônibus e reivindicar direitos a frase mais dita era ‘O Gigante acordou’, temos que admitir que os filhos dele também estão de pé — e melhor, fazendo a luta. Protagonista de questões decisivas na história do Brasil como impeachment do ex-presidente Collor de Melo e símbolo também na resistência contra a Ditadura, nos últimos tempos a juventude se aquietou. Os programas sociais voltados ao ensino e a democracia foram conquistas alcançadas e plenamente desfrutadas. O movimento estudantil fechou os olhos brevemente, mas agora, os estudantes secundaristas vêm para a retomada.

A ocupação das escolas públicas no estado de São Paulo, ano passado, mostrou que os nossos jovens estão conscientes das questões que lhe dizem respeito, e que estão dispostos a lutar por elas. Quando o governador de SP, Geraldo Alckimin, anunciou uma reforma que fecharia cerca de 90 escolas estaduais e geraria o remanejamento de mais de 300 mil alunos, os estudantes foram às ruas protestar, e também, além delas. Pela primeira vez no país, os estudantes ocuparam as escolas para lutar e se apropriar de tudo aquilo que têm por direito: educação de qualidade.

O exemplo dos estudantes secundaristas de São Paulo que conseguiram êxito em suas reivindicações refletiu no país inteiro. A nova geração virou símbolo de esperança, de futuros adultos que não mais aceitarão tudo que lhes for imposto. No Rio Grande do Sul, não foi diferente. O estado, que não paga o piso salarial nacional dos professores e que atualmente está parcelando salários, gerou revolta. E mais uma vez, a revolta foi para dentro das salas de aulas de cidades como Porto Alegre, Canoas, Passo Fundo e Caxias.

#OcupaCaxias: estudantes mobilizados pelo ensino

Professores mal valorizados, escolas sucateadas, merenda de baixa qualidade e ensino ultrapassado são os motivos pelos quais os estudantes caxienses se mobilizaram para ocupar as escolas da cidade. Atualmente, são cinco: Escola Estadual Apolinário Alves dos Santos, ocupada dia 18 de maio; Escola Henrique Emílio Meyer, na madrugada do dia 19; Instituto de Ensino Cristóvão de Mendonza, (19); Cavalheiro Aristides Germani, (20), e a Escola Estadual Técnica de Caxias do Sul, no dia 30.

Segundo o estudante Leonardo Cechin (17), da Comissão de Comunicação da ocupação no Cristóvão, muitas assembleias foram realizadas na escola para debater os problemas que vinham enfrentando e decidir o processo democrática e legalmente, demonstrando a maturidade das atitudes dos jovens. “Nós fizemos algumas assembleias, contatamos um advogado para ver como poderíamos ocupar dentro da lei. Também temos noção do desgaste na política, por isso não temos a ajuda de nenhum partido. Estamos fazendo tudo por conta própria”, conta o garoto, que enfatiza que é um movimento político, mas apartidário. Em uma oportunidade particular, Leonardo visitou as ocupações em São Paulo. “Se eles conseguiram ocupar e alcançaram o objetivo, a gente também pode conseguir.” Comparando as escolas de São Paulo com as escolas caxienses, Leonardo declara “A precariedade do estrutura e dos materiais é praticamente a mesma, as salas também são lotadas. Infelizmente, não muda muita coisa nas escolas públicas.”

A falta de participação do aluno dentro da escola e o ensino com modelo ultrapassado são queixas da estudante Bianca Reis, de 16 anos. “O aluno não aprende a tomar frente, ele só aprende a obedecer. A experiência da ocupação é muito nova para todos, mas o aprendizado é constante, a cada dia que a gente vem aqui”, declara a filha de pais militantes, que são funcionários públicos. E quando se fala na experiência, os estudantes se referem às novas aulas e à própria organização para o bom convívio.

Ocupar é para somar e dividir

Ocupação no I.E.E. Cristóvão de Mendoza, terceira escola a ser ocupada em Caxias | Foto: Kétlin Varela

Nem sempre a convivência entre os jovens é fácil. Pequenos conflitos causados por gostos diferentes e personalidades distintas acontecem a todo momento, mas são naturais em qualquer relacionamento de quem passa mais de cinco horas juntos diariamente. Porém, a ocupação das escolas e o propósito maior da educação gerou um efeito diferente do que seria esperado. Colegas participativos e unidos, desde os “alunos-problema” até os alunos “nerd”, estão se empenhando em trazer palestras, oficinas e aulas diferentes para não ficar sem conteúdo, explica Gabriela da Cunha Zanelatto, do colégio Aristides Germani, que mostra com orgulho a chamada “Biblioteca da Ocupação”, com livros que os colegas trouxeram de casa para trocar.

Além disso, com os estudantes se dividindo em comissões de segurança, cozinha, limpeza e comunicação, foi realizada uma espécie de soma de esforços para manter a escola. Uma espécie de experimento da vida adulta. Ou até melhor que isso.

Professores e comunidade: ocupam que posição?

“É um resgate do movimento estudantil depois de uma estagnação, de uma ditadura que calou os jovens, parece que agora se tem um novo motivo para estar nas ruas, e que é grande também.” destaca o professor Leandro Fachin, da Escola Olga Maria Kayser, enquanto acompanha estudantes e professores grevistas durante uma manifestação realizada em frente à 4ª Cordenadoria Regional da Educação de Caxias. “O jovem na rua significa a conscientização que não dá para aguentar as escolas do jeito que são, sem laboratórios de informática, jovens até depois do meio-dia sem merenda. Ainda falta muito e o número de jovens nas ruas podia ser bem maior, mas é o começo”, conclui o docente.

Os estudantes entendem que participar de greves nem sempre é uma decisão fácil para os professores, que às vezes têm medo de represálias. Os professores mais antigos também veem o histórico de greves que não resultaram em conquistas significativas no estado e decidem não aderir. A coordenadora pedagógica da 4ª CRE (instância da Coordenadoria Regional da Educação, em Caxias) Janice Teresinha Zambarda Moraes, disse que não adere mais à paralisação por essa razão, mas que acredita na mobilização dos estudantes para chamar atenção à causa, desde que a vontade daqueles que desejam ter aula também seja respeitada, sem a ocupação total de nenhuma escola.

A posição dos pais também é diferente em cada família. Na casa de Bruna Zirbes, 16, estudante do 3º ano do EETCS, os pais não interferiram na decisão de participar da ocupação. “Meus pais entendem que eu tenho condições de decidir o que é bom para mim e que sou eu que vivo a realidade dentro da escola”, ressalta. Para Bianca Reis, o apoio se demonstra nas pequenas ações: “A gente sente o apoio da comunidade. Eles nos ajudam com as doações, perguntam como está a ocupação, alguns estudantes do ensino superior oferecem aulas ou oficinas. Quem apoia geralmente não mostra as caras, mas quem discorda rasga nossos cartazes, xinga nas redes sociais. Com certeza, sinto que o apoio é bem maior”, conclui a militante.

Em meio a tanta descrença política e um cenário nacional que não passa crédito nos poderes e nas instituições públicas, os jovens ocupando as salas de aula são quem estão passando a lição. Lutar por seus direitos, com responsabilidade, maturidade e de maneira pacífica é o que eles ensinam. Esperança nessa geração ativa e militante é o conteúdo da vez.

Matéria produzida por Kétlin Varela na Disciplina de Mídia Imprensa, do Curso de Jornalismo da Universidade de Caxias do Sul

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