permito

permita-me te dizer uma coisinha, tipo assim, me ouve um pouquinho porque eu juro que quero ser breve. ah te fode. quer saber? breve vai ser é o caralho, me escuta aqui que hoje eu me permito desabafar pra ti e pra quem quiser. e não faz essa cara que eu conheço bem e nem suspira mais pra mim que de ti eu não vou aguentar nem um pio. é agora que tu vai me ouvir caladinho e sabe por quê? porque eu queria ter dito um monte de coisa há tanto tempo e eu preciso dizer agora senão eu sinto que vou explodir numa crise e arranhar teu rosto até pingar sangue da tua cara. tem um mundo de coisas que eu não falo e que eu pateticamente prefiro permitir pra não gerar conflito, e não isso não é culpa tua. inclusive, já que tocamos nesse assunto chamado culpa tua, não tem tantas quanto eu atribuo e nem motivo de tanta raiva quanto eu sinto. acho que minha maior frustração é ter sido permissiva e já que meu texto e meu auê giram em torno do termo permissão, vou repetir isso tantas vezes forem necessárias pra que soe poético e pra que fique enfatizado pra qualquer um ou dois leitores. olha, se eu listar situações e ódios gratuitos (pessoalmente, creio que muitíssimo bem pagos) tenho certeza que acho mais de quarenta motivos pelos quais te odeio e, o mais engraçado é que todos se relacionam a minha permissibilidade. de novo isso? sim. de novo isso. mas sim, deixa eu te explicar porque isso tu e uma grande parte da população desse mundo não sabem o que é. porque sim, isso não é surpresa nessa categoria de “pessoas que amam de mais” que eu vivo em que temos que reconhecer que a maioria das pessoas não sabe o que significa se permitir viver ou permitir que alguém mude um pedacinho do momento que elas estão vivendo. compreendeu né? isso é engraçado daquela maneira bizarra e inexplicável e diretamente proporcional que o ser humano age que, quanto mais a gente dá para alguém, menos satisfeitas essas pessoas ficam e isso é tão humano que o sangue do meu corpo quase incendeia as minhas veias de tanto ódio porque barreiras como essas existem em qualquer relacionamento. qualquer um. e, falando pessoalmente, não sei o propósito de tudo isso, mas se tu e todas as pessoas no mundo que foram agraciadas com esse tal “amor de mais” ainda tiverem um pouco das madrugadas e das noites e dos finais de semana e da sanidade e da preocupação ganhados, tenham a decência de devolver ou recolocar no nosso peito ou sei lá. deixamos mais com vocês do que deveríamos e nos permitimos mais do que o recomendado. cansei de ouvir os famigerados conselhos que as pessoas muito entendidas em relacionamentos recomendam que a gente “freie os nossos sentimentos”, não? mas, falando por mim, ainda sei que penso e falo e te odeio e guardo mais rancor do que minha cabeça e meu coração aguentam. essa parte ruim eu acho que posso deixar contigo. assim como as milhares de pessoas que “amam de mais”, sempre sou traçada como a melhor pessoa do mundo e ouço aqueles papinhos de que não há problema algum e que amar de mais é lindo, mas que as pessoas não sabem lidar. só que em que droga de mundo isso é um defeito em alguém? é como se amar muito fosse algo que os humanos comuns não conseguem fazer, como se a gente fosse um desses seres brilhantes que se doam demais por alguém e que causam estranheza em babacas que não sabem como agir quando recebem sentimento puro e carinho e entrega, que acham que essa “gente que ama de mais” vai grudar e impedir qualquer coisa escrota que julguem importante. as pessoas não sabem se entregar em nada e acho que junto com a raça humana deve nascer alguma trava que enche a maioria das pessoas de medo e egoísmo e uma falta de coragem absurda pra viver aquilo que não tá explicado em lugar nenhum, algo como um déficit em sentimentos ou algo genérico a isso. e na real ufa! eu te agradeço tanto pelo nosso final e pelo final que outras pessoas por aí colocaram em relações alegando “amor de mais” porque talvez eu e toda essa gangue de permissivos continuasse nesse comodismo e com esse sentimento desamparado de injúria por se doar tanto. finalmente, sobre isso tudo, eu só quero dizer que a cada dia que passa eu não consigo deixar de me perguntar se todo esse ódio que eu sinto é por ter aberto os olhos pra o quão estranhas as pessoas podem ser e o quão furadas são as desculpas pela falta de envolvimento. confesso que se, se assim fosse, uma grande parte de mim gostaria de ter os olhos fechados pra tudo isso. permite dizer que essa é a tua grande culpa e de todas as outras pessoas que recusam um “amor de mais”? é mostrar a parte horrível que a gente não conhecia. só isso.

e mais um sobre: por isso eu continuo me permitindo te odiar um pouco mais.

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