Falta vol. 2 — Earis
Eu devia estar revisando o livro, ao invés de estar aqui
É engraçado como eu ainda me lembro das coisas… Tudo o que eu precisei foi de vontade e um empurrão. A Ísis foi a primeira. Ela disse: “Escreva, é bom” e eu dei ouvidos e não poderia ser menos grato por essa outra parte tão importante da minha vida. A Quarta Grande Mudança.
A inspiração não demorou muito para vir. Foi no ano de 2012. Foi depois das férias do meu segundo primeiro ano do ensino médio — e isso fica pra outro texto — e por razões que desconheço, existem coisas que são para ser e pronto, e essa foi uma delas.
Era madrugada e eu chacoalhava num trem velho da linha 12 - Safira, da CPTM. Fazia frio e eu não conseguia dormir sobre a mochila. Eu estava indo para escola. Acordava às 3h30 da manhã, me arrastava até o banheiro pra lavar o rosto e escovar os dentes, comia alguma coisa e saía pra pegar o ônibus das 4h15. Entrava às 7h na ETEC Getúlio Vargas, onde cursei o técnico de Design de Interiores e o Ensino Médio, em período integral.
Sempre tinha sono.
Mas…
Naquele dia não.
Eu o vi entrar no trem com o pai e a mãe. Era um garotinho franzino e emitia sons que para mim, ainda um menino de 16 anos, eram estranhos, curiosos. Ele tinha alguma síndrome, não sei dizer, mas aquele garoto que nunca vou saber o nome mexeu comigo.
E o August nasceu na minha cabeça.
Foi assim que Earis, antes mesmo de receber este nome, nasceu.
Esse texto não é sobre o que vem entre 2012 e agora, 22h do dia 22 de Agosto de 2017. Não é sobre o processo criativo e nem as várias pessoas que fizeram daquele garoto do trem as atuais 564 páginas de Outono, o primeiro dos quatro livros de Earis, que estou revisando e ilustrando pra depois registrar e buscar uma editora. Talvez dê certo… Não é sobre a história, mas sobre o que ela representa para mim e porque sinto falta.
Existe uma linha tênue entre o que gostamos de fazer e o que não gostamos. Earis se tornou um trabalho… O trabalho da minha vida porque eu nunca me desempenhei tanto pra fazer alguma coisa. Já são cinco anos e nem tá pronto e acredito que seja justamente porque, em algum momento, o que eu fazia por diversão, virou um trabalho. Um trabalho massante, desgastante.
Tão desgastante que eu frequentemente me dou férias dele. É difícil querer fazer algo o mais certo possível, mas eu quero que isso fique bom. Não pros outros, por mais que eu já tenha dito mais de uma vez que a história é para as pessoas, mas para mim. Eu, que sou tão perfeccionista.
E me agradar também é desgastante.
Recomecei a história 3 vezes. A primeira delas é um arquivo de 13 páginas com o pior texto que eu já li na minha vida. Aquela droga é tão ruim que eu não consigo ler. E olha que fui eu quem escreveu. UHAUAHUAH
A segunda, de 80 e poucas páginas é menos ruim… E foi base para a que chamo de Terceira Versão, a que não me cansei e joguei para o ar, a que mais me empenhei e que escrevo desde o final de 2014, o pior ano da minha vida, que por si só merece um texto ou dois.
Earis é uma das melhores coisas da minha vida e eu desesperadamente queria terminá-lo de uma vez. Pelo menos o Outono. Até comecei Inverno, mas não consegui continuar por causa dessa maldita revisão que comecei em fevereiro de 2017 e ainda em agosto, tá em 1/5 do livro. A vida me consome e eu sou um procrastinador de primeira mão.
Confesso.
Acho que tenho vencido a falta, mas não por causa do livro. São estes textos, que eu tenho realmente gostado muito de escrever, que suprem minha necessidade de por uma palavra atrás da outra, livremente. Earis me satura. Não porque é grande, mas porque já li cada capítulo uma ou duas vezes. Há capítulos que já li mais de dez, como o Prólogo (tanto que praticamente sei recitá-lo sem ler) e os primeiros capítulos, por causa de revisões parciais. Essa é a parte cansativa. Já os últimos, que escrevi na empolgação de estar terminando o livro, mal li uma vez e isso me frustra. Porque eles ficaram uma droga, tenho certeza.
Que mente confusa, a minha!
~ suspiro
Vai dar tudo certo, eu acho.
