10 dias após um atentado e da morte de 43 pessoas, lá estávamos nós ocupando a rua. domingo, 22 de novembro de 2015, o dia que marcava o 72º aniversário da independência do líbano. a rua começou a se encher por volta das 10 da manhã. eu preferi dormir até mais tarde e cheguei lá por volta das 16h. bebês, crianças, velhos, adultos e cachorros se misturavam com as barraquinhas de comida ao som dos djs espalhados pela rua. um misto de gente ocupando a rua sem diferença de classe ou religião.
a menina dançava na esquina. o garotinho aos berros pedia o pai o para comprar o brinquedo que ele queria. o cachorro latia ao passar por um outro cachorro. o dj enxugava o suor da testa e regia, com maestria, os botões da mesa de som. aparentemente nenhum clima de tensão, a não ser pelos homens uniformizados com os trajes de estampa camuflada e fuzis nas mãos.
parecia surreal que ninguém se importava que aquele era o lugar mais propício do país para acontecer algo. dia sem carro e rua entupida de pessoas dançando à luz do sol. pra que se importar? a cerveja descia gelada pela garganta e as tragadas no cigarro eram dadas calmamente como se ainda restassem mil anos pra se viver. aquela normalidade diante de um possível atentado me lembrou o poema “quando vier a primavera” de alberto caeiro (heterônimo de fernando pessoa).
quando vier a primavera,
se eu já estiver morto,
as flores florirão da mesma maneira
e as árvores não serão menos verdes que na primavera passada.
a realidade não precisa de mim.
sinto uma alegria enorme
ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.
(…)
por isso, se morrer agora, morro contente,
porque tudo é real e tudo está certo.
(…)
como estávamos no outono e os dias estavam sendo mais curtos, começou a escurecer em torno das 5 da tarde. simultaneamente com o cair da noite, a música se tornava mais alta e as pessoas dançavam mais intensamente. as crianças e os cachorros começaram a desaparecer e apenas uma multidão dançante e meio (ou muito) ébria tomou conta da rua.
aproximadamente 18:30h, a rua se fundiu em um só organismo com cheiro de gente. não haviam mais calçadas, muros, bares ou esquinas, apenas uma massa dançante. uma coisa linda de se ver. por alguns minutos parecia que éramos todos eternos, infinitos, e que aquele momento duraria para sempre.
nada mais importava. se explodir, que morramos brindando. um amigo verbalizou o que todos sentíamos, mas não sabíamos expressar: “A impressão era que em um universo paralelo uma bomba explodiu e nós todos morremos dançando na rua.”
a rua ficou tomada até as 20h, aos poucos os carros voltaram a circular pelo asfalto e as buzinas a ressoar nos nossos ouvidos. no chão, os destroços. restos da festa linda que ali aconteceu. símbolos da delícia e da amargura que é se viver aqui.