Impressões sobre uma noite de Ocupa Minc RJ

Chego pra ouvir música, pra ralar o cú no chão e abafar da minha mente os pensamentos que tanto me incomodaram nos últimos dias. A energia do lugar me faz arrepiar os pelos do corpo, e olha que tenho muitos. Minha entrada é quase que um ritual sagrado. Olho em volta para tentar gravar cada minúsculo detalhe dali. Cada bandeira grudada nas janelas lá em cima, as cercas que controlam a entrada das pessoas, as plaquinhas “preserve o verde”, os inúmeros “Fora Temer”, os adesivos das sereias…

E assim sigo em minha peregrinação rumo ao palco.

A música faz trilha sonora para minha entrada. Não me lembro que banda tocava porque por ali passaram muitas, mas sei que a música fez meu quadril remexer sem o comando direto do meu cérebro, como quando perto de um orgasmo que fica impossível controlar os movimentos involuntários do corpo. Ô ambiente cheio de magia, mistério e força. Em cada rosto que eu olhava, uma expressão difícil de descrever por sua singularidade planetária. A minha alma, antes pesada, agora se configura em uma leve massa flutuante.

Olho ao meu redor. Muitas massas flutuantes se balançam de lá pra cá. Balanço que se assemelha ao de uma árvore rendida ao vento da tempestade que se aproxima. Que coisa maluca seu corpo ser um ato político. E naquele momento era. O meu. O do cara de saia colorida. O da moça descalça. E o corpo de cada um que se dispôs a estar ali naquele instante.

Um dia, uma moça me disse que tudo é um ato político. Me recordo bem de seus olhos castanhos, sorriso torto e o sacudir da cabeça reafirmando o que falou. E ali consegui dimensionar em uma proporção, talvez ainda pequena, as palavras daquela moça.

Deixo meu corpo se mover no gingado da música.

Abraços e beijos fazem parte constante do espaço. O amor ali, transfere-se sem esforço, quase que por osmose. Procuro logo uma boca pra beijar e trocar fluidos. Afinal, você só troca fluídos deliberadamente com alguém que se quer muito ou que já se tenha uma intimidade. Intimidade daquela que independe do tempo que passaram juntos. Falo aqui da intimidade de alma. Passo meus olhos embriagados na multidão a minha volta. Aparentemente poderia ser qualquer um, já que estávamos todos protestando com nossos corpos contra a mesma coisa, e isso já traz uma certa intimidade.

— FORA TEMER!!! — grita um ser ocultado pelo mar de gente.
— FORA!!!! — repete a multidão ébria, mas não menos convicta.

Me distraio do meu objetivo de trocar fluídos. Meu pensamento se concentra no golpista. “Tá aí uma coisa boa desse filho da égua. Juntou da pior forma possível tanta gente maravilhosa.” Com o último gole da catuaba, meu pensamento se esvai e caio na dança de forma intensa, com a certeza de que o governo golpista vai cair.