o pequeno relato sobre ninguém

nemo se levanta todo dia
toma seu café amargo
veste sua roupa
e pega seu ônibus
senta ao lado de um desconhecido
e não fala com ninguém
às vezes vê alguém interessante
até sente vontade de dizer oi
chamar pra tomar uma cerveja
mas não

descansa seu corpo sonolento no assento
e segue chacoalhando

nemo não gosta da vida que leva
porém não há outro jeito de viver
não há outra forma de existência

no trabalho, nemo não cria laços
prefere o anonimato a espalhar sorrisos
sem propósitos e vontade
abre seu facebook de vez em quando
pra tentar desanuviar a cabeça
no simulacro da vida
só encontra desgraça e ódio
não vê a hora de acabar o expediente
o relógio se transforma num objeto sagrado
digno de ser olhado de hora em hora

na volta pra casa
nemo se vê envolto por uma multidão desconhecida
e mais uma vez sente-se só

ao chegar em casa
jogado no sofá, acende um baseado
e abre uma cerveja gelada

nemo sonha com uma vida melhor
quer viajar o mundo
aprender a falar inglês
pelo menos pra entender as músicas que escuta no rádio
mas as contas, no momento, são maiores que os sonhos
e os sonhos vão ficando tão invisíveis
que se camuflam na realidade crua

(to be continued)

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