Sobre não ser feliz

Quando você descobre que era tudo mentira.

Eu não preciso fechar os olhos para me lembrar. Eu tinha só 8 anos, e uma certeza. Uma causa. Todos os argumentos do mundo me moviam nas brigas da escola, eu defendia com a força de uma adulta, exceto pelo tema da minha certeza e da minha causa que, no caso, era o papai noel.

Eu tinha tanta convicção que esse homem existia que armava qualquer barraco e desfazia qualquer prova cabal de que era mentira. Não era. "Eu juro. Eu sei. Ele existe. Ele voa com o trenó por todo o planeta. Ele tem barbas brancas e botas pretas, e ele vem, infalivelmente, ele vem." Tenho certeza que eu causava com a família, quando meus amigos sentavam-se à mesa para jantar, e diziam, para os pais e para os irmão maiores: "Tenho uma amiga que viu. É sério, ela viu."

Era eu. Eu dizia que tinha visto no céu, com as renas, a cena clássica, eu vi na janela da sala, da minha casa, juro. Eu insistia.

Foi no meio de uma dessas brigas, anos depois, que um primo meu, chamou a minha mãe: "Não é que ele não existe?" E depois chamou a minha irmã. E um tio que estava na casa. E, pouco a pouco, todos os pilares do meu edifício interno iam ruindo, quando eles concordavam, ainda que eu insistisse. Eu não chorei, eu não relutei, porque , internamente, eu fiquei semanas processando aquilo. Com tamanha frustração e tristeza, que fazia o mundo adulto pesar toneladas sobre meus pensamentos.

Muitos anos depois e eu me tornei uma adulta feliz. Em São Paulo, dona do meu nariz, formada estudada e livre, o mundo parecia bom. Eu casei, eu tive filhos e eu proclamava felicidade aos quatro ventos, até que a maturidade, o tempo — ah, o tempo — foram fazendo a coisa mudar de figura. Feliz? Nesse caos? Com essa vida enlouquecida? Sem tempo para os filhos, com tempo demais para os filhos, com vidro blindado? No trabalho eu queria estar em casa, em casa queria estar num projeto legal, no projeto legal eu queria estar na praia e, em todas essas situações, ainda que vivendo momentos de alegria, eu os sabia efêmeros. Pronto, era isso. eu era infeliz, mesmo tendo tanto. eu era infeliz, e, ainda por cima, ingrata.

Foi abrindo o meu coração para o mundo, que percebi. Éramos todos. Estávamos todos no mesmo barco, buscando a completude, que não existia. Então, era isso: A felicidade não existe. Era o meu papai noel. Eu defendi por tantos anos, achei até que vi, que vivi, mas, que mentira, que falácia. A felicidade não existe. E, embora eu tenho momentos de alegria imensa, embora eu me sinta grata, viva e lúcida, faz parte da jornada, saber que há a falta.

Constatar que a felicidade não existe, quase me deu felicidade, o que soou estranho, e eu renomeei por "alegria"

A mim, a felicidade fala de completude, e a completude não existe. A pessoa pode até estar bem no trabalho, vida amorosa excelente, dinheiro na conta, o que, convenhamos, já faz desse indivíduo praticamente um x-men, mas, certeza que, de algum jeito, ele tem lá a unha encrava dele que lateja a noite.

Porque a vida é assim, e, saber lidar com as faltas, é o que te faz ver a abundância. Essa plenitude de felicidade, é tão falsa quanto o meu papai noel.

"Felicidade se acha é nas horinhas de descuido", disse Guimarães Rosa. É isso. Ela não existe de verdade. Até que você se descuida.

O bom velhinho não existe, mas converse com uma criança descuidada, e repense.

Assim é a felicidade. Não existe. Esqueça. Descuide-se, e veja. Tem barbas brancas, botas pretas e voa sobre um céu estrelado. Olhe.

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