eu já te matei. e hoje, pela enésima vez, vc ressuscitou. merda de fênix insistente. vou te destruir com a mesma tranquilidade com que venho te explodindo em mil pedaços. hoje mesmo, até o fim do dia, garanto, mas vai ser pelo caminho mais longo: relembrando nossos passos desde aquela maldita primeira vez que me deu um negócio estranho que eu odeio sentir, pq não sei lidar:

aquele desejo de te pegar pela mão, sair correndo enquanto você faz mil perguntas e reluta, e eu só mando vc ficar quieto e me acompanhar, te puxo com mais força quando você perde o fôlego, machuco seu pulso, te arrasto nas esquinas, te empurro com enorme brutalidade quando, de novo, você ameaça que vai parar porque não entende nada disso e eu grito com raiva: FICA QUIETO E VEM. a gente chega, eu te arremesso na cama rasgando sua blusa branca velha, abrindo o zíper do teu jeans encardido, me atiro em cima de você e tudo vira o mais profundo silêncio que só é interrompido pela minha respiração afobada, pelo seu coração com medo e pelo barulho da minha língua na sua boca. os barulhos saem de dentro pra fora; o silêncio se incomoda.

isso tudo só na minha vontade, na minha elocubração febril de quem viu sua imagem de santo e passou a acreditar em qualquer coisa depois de longos anos dedicados ao ceticismo. lá vem você, puta que pariu, me tirar dessa zona de paz e me ascender. acender. eu choraria. ver você não é pra qualquer um; não é pra qualquer dia. ver a tua digníssima imagem em brilho me faz acreditar em qualquer coisa: em vida após a morte, em vidas passadas, em universo, em telepatia, em sincronicidade, em coincidência, em infinito, em mim, em você, em nós dois. maldita seja a tua aura que resplandece o mais nobre e indomável dos sentimentos, mas bendita seja, bendita seja essa coisa que te envolve e que um dia há de ser o meu espelho, meu guia, pra onde eu quero ir sem precisar de força e você irá me puxar antes que eu puxe o gatilho.