Mariana a miserável e dois ismos: diletantismo e militantismo

“Ulrich cedo compreendeu que a época em que vive, dotada de um saber imenso que nenhuma outra época antes teve, parece ser incapaz de intervir no curso da história. E a razão de tudo isto, vê-a Ulrich no facto de a realidade, hoje, só numa ínfima parte ser produzida pelos homens. Os homens já não são criativos porque se tornaram um montão de qualidades e de hábitos e porque as suas experiências de vida obedecem a um esquematismo herdado. Assim: já não são capazes de viver as suas próprias experiências”.

Ingeborg Bachmann sobre O Homem sem Qualidades

“A seriedade deve levar à felicidade e a felicidade à seriedade”

Rober Walser, O Salteador

Mariana a miserável, todos os direitos e tudo

Pouco faltará para que um acontecimento insólito e remetido ao esquecimento complete um ano. Só se celebra aquilo que é digno de nota, e, portanto, aqui está ela, a nota, ainda que se apresente de forma pouco digna, acossada pela dificuldade que é descascar a aniversariante história. Porque as coisas chafurdam em clarividência, tentarei chafurdar delicadamente de modo a evitar a tão apetecível obscuridade muito em voga. Poucos salpicos, muitos avanços na piscina (é uma máxima nas aulas de natação). Nada melhor, posto isto, do que falar sobre a gravidade que é nadar fora de água:

Virgilio Piñera, O Grande Baro e outras histórias, edição da Snob

Este peixinho que nos foi oferecido não é nada mais nada menos do que a resposta (ou não-resposta) que Mariana a miserável deu a uma aluna da FAUP. Tudo começa com uma tradição (chegamos atrasados, então) dos alunos do segundo ano de arquitectura: é organizada uma viagem a diversos países da Europa, para que os referidos alunos estudem algumas importantes obras arquitectónicas do velho continente. Para que tal possa acontecer, realiza-se um leilão com desenhos cedidos por artistas conceituados (Siza Vieira participou, entre outros) e recolhe-se o dinheiro da venda das obras, que cobrirá as despesas da viagem. Mariana a miserável considerou este pedido um absoluto insulto, melhor, utilize-se a gíria dos meios alternativos em que a ilustradora se insere: uma autêntica falta de noção. Faltava a estes alunos, no entender de Mariana, uma sensibilidade muito necessária para a compreensão do débil lugar do artista no nosso país. “Como assim. Que lata. O artista já não é suficientemente explorado e agora vêm estes tipos viajar à nossa custa”. Mariana a miserável não endereçou qualquer resposta à aluna que entrou em contacto com ela e que lhe perguntou se estaria disponível para doar um dos seus trabalhos. Preferiu antes fazer um print-screen da mensagem e partilhá-la com todo o pessoal da escola crítica que tem adicionado no seu facebook. A nossa ilustradora nada fora de água e colhe peixes que a própria desenha. No seu entender, um grupo de alunos de arquitectura representa toda uma elite a que se deve a precariedade do meio artístico português. São muito piores, pensa Mariana, do que uma Ó! Galeria, que cobra ao artista 50% do valor da venda das suas obras. Aquilo que na altura pensei ser um tique nervoso de uma burguesia saudosa dos tempos em que derramava filantropia revolucionária trata-se, podemos dizer, de uma muito mais alargada forma-de-estar de uma certa classe dominante. Em súmula: Mariana a miserável nada muito violentamente fora de água e orgulha-se dos peixes que vem pondo diante dos nossos narizes. O que é este fora de água? Como tornar conceptualmente mais abrangente esta forma de se movimentar nas águas?

Peter Sloterdijk, em “Cólera e Tempo”, explora a formação daquilo que designa por “reservas de cólera”. Recorre, para tal, a diversos textos religiosos. Começa por analisar a constituição do tesouro de cólera judeu:

“A constituição do tesouro de cólera judeu — sem a qual é incompreensível o conceito de justiça, na sua tonalidade religiosa que ainda hoje ressoa — desenvolve-se mais ou menos em partes iguais em dois depósitos separados entre os quais podemos observar transferências complicadas. No primeiro depósito vamos encontrar massas de cólera já mencionadas, que, no essencial, são dirigidas contra os inimigos exteriores, invasores, soberanos estrangeiros e aduladores de outros deuses. […] Paralelamente, constitui-se um segundo ponto de captação cuja melhor descrição é a de um depósito de massas auto-agressivas de cólera. É evidente que esse tesouro de cólera deve ser acumulado junto do próprio Deus — e são no essencial os membros do povo judeu que, nos períodos em que são oprimidos, sentem as consequências dessas acumulações de cólera”.

Este segundo ponto de captação não visa eliminar os que não são conformes, mas antes purificá-los e transformá-los. Por que razão tal ponto nos interessa para a análise desta atitude de Mariana a miserável?

Peter Sloterdijk refere que este profetismo auto-agressivo dificilmente sobreviveria a períodos em que o povo judeu fosse completamente subjugado por outro povo exterior. A impotência desta estratégia viria a resultar num conceito totalmente novo.

A passagem deu-se durante a segunda metade do século II a.C. O mundo pré-oriental, a Israel antiga incluída, foi integrado na zona de poder dos déspotas helénicos:

“Na época do reinado dos Selêucidas sobre Israel, a insuficiência do tratamento profético, moralista e auto-agressivo da infelicidade era tão manifesta que se tornava inevitavelmente necessário encontrar novas formas de lidar com a miséria esmagadora. A primeira foi o desenvolvimento de uma resistência militar de massas, a segunda, a produção de um novo esquema radical de interpretação da história do mundo para a qual se tem empregado até aos nossos dias o conceito de “apocalíptica”.

Este mundo com os dias contados tornava qualquer intuito de purificação completamente absurdo, deixando a transmissão de um legado doutrinal de ser uma preocupação do povo. A reconstituição histórica que Sloterdijk elabora interessa para a genealogia do militantismo, já que são definidos dois caminhos distintos e é inaugurada de facto a militância: ou a “insurreição anti-imperial secular (resistência armada) ou a “esperança religiosa ou para-religiosa na queda global dos sistemas” (apocalipse). O indivíduo é, portanto, militante, e deixa de lado a purificação.

Acontece que se regista uma nova mudança. Em O acento agudo do presente António Guerreiro afirma que a modernidade se apresenta como a época em que se dá a separação entre história e apocalíptica. Karl Lowith e Hans Blumenberg interpretam esta questão de formas distintas. O primeiro admite que tal processo é resultado da secularização da escatologia cristã, enquanto que o segundo atribui a responsabilidade deste paradigma à auto-afirmação do homem face ao absoluto teológico.

Mariana a miserável carrega história na sua atitude, mas carece da apocalíptica. O militantismo ergue-se impetuoso numa atitude viciada: é uma burguesia que pensa dar ares da sua graça, quando nada fora de água. A filantropia burguesa não reconhece o seu deslocamento porque simplesmente está embrenhada num projecto falso: “A ilegitimidade do resultado da secularização consiste no facto de ele não poder secularizar o próprio processo de onde surgiu” (Blumenberg).

Mariana a miserável e o seu militantismo diletante, vazio, têm um futuro assegurado. As galerias acolhem-nos, os microfones ampliam-nos, os Públicos desta vida entrevistam-nos, etc. Dostoievsky elaborou um retrato desta estirpe social que pouparia todas estas minhas palavras vagas. Trata-se do enorme “Demónios”, em que o russo escreve que tudo o que fazemos, mesmo aquilo que fazemos bem, ou o bem que fazemos, é por nós abraçado por tédio, porque estamos vencidos pelo tédio. A ilustradora em questão nada sozinha com os seus fora de água. São puros, regressam ao estoicismo moral, e de lá trazem uns peixinhos.

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